A Câmara dos Deputados aprovou em Plenário moção de repúdio às declarações de Paolo Zampolli, representante do governo Trump para parcerias globais, que declarou, durante entrevista na última quinta-feira (23), que mulheres brasileiras são “programadas” para causar confusão.
Assinada pelo deputado Luiz Couto (PT-PB) e pelas deputadas Heloísa Helena (Rede-RJ), Luizianne Lins (Rede-CE), Marina Silva (Rede-SP), Gleisi Hoffmann (PT-PR) e Laura Carneiro (PSD-RJ), a moção propõe que Zampolli seja declarado persona non grata no âmbito político-institucional da Câmara dos Deputados.
A declaração do enviado de Trump foi feita a uma emissora italiana, em resposta a uma pergunta sobre as acusações feitas por Amanda Ungaro, ex-modelo brasileira e ex-companheira dele por cerca de 20 anos.
Zampolli é acusado de agressão física, psicológica e sexual. Amanda Ungaro relatou ter sido vítima de socos no rosto quando recusava relações sexuais e apresentou fotos de hematomas como prova. Ele nega as acusações e diz que ela tenta prejudicá-lo.
Telenovelas
Em outra declaração, o enviado dos EUA também relacionou o comportamento dos brasileiros ao consumo de telenovelas: “Os brasileiros assistem a novelas e são todos um pouco assim. Você já ouviu dizer que as brasileiras enganam todo mundo, né? Não é como se fosse a primeira vez”.
O deputado Luiz Couto afirmou que Zampolli utilizou “expressões depreciativas e ofensivas contra mulheres brasileiras, promovendo generalizações incompatíveis com o respeito devido à dignidade humana, à igualdade de gênero, à soberania nacional e à imagem do povo brasileiro”.
A ex-companheira de Zampolli o acusa ainda de influenciar o governo Trump a deportá-la dos Estados Unidos, impedindo-a de ver o filho do casal.
Violência contra mulheres
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), manifestou “total repúdio” às declarações de Paolo Zampolli. “A mulher brasileira é honrada, trabalhadora e luta todo dia para sobreviver em um Brasil cada vez mais hostil”, disse.
Motta lembrou que declarações como essas incentivam agressões. Ele citou que, em 2025, o Brasil teve o maior número de feminicídios dos últimos dez anos, mais de 1.500 mulheres assassinadas, uma a cada 5 horas. “Combater violência contra as brasileiras é prioridade desta Casa. Não vamos compactuar com nenhum tipo de declaração que viole os direitos das mulheres, nem incentive comportamentos agressivos”, afirmou.
De acordo com Motta, não é possível fechar os olhos para declarações como as de Paolo Zampolli. “Esta Casa saberá se levantar e enfrentar, se preciso for, da maneira que nos convier para proteger as mulheres brasileiras de qualquer tipo de violência”, declarou.
O presidente da Câmara fez questão de parabenizar os parlamentares que apresentaram pedidos pela moção de repúdio.
Debate em Plenário
Durante o debate em Plenário, a deputada Marina Silva afirmou que o repúdio tem razões de natureza política, filosófico-conceitual, de gênero e cultural. “Não acredito que nenhum de nós, independente do espectro ideológico, seja conivente com a desqualificação feita das mulheres brasileiras no conjunto da nossa população, o que passa a ser uma ofensa a todo o país”, disse.
Segundo ela, a fala de Zampolli deve ser respondida como opinião de governo e não apenas pessoal. Marina Silva ressaltou que o assessor especial nunca foi desautorizado pelo governo Trump.
Já o deputado Gilson Marques (Novo-SC) disse ser contra as falas do assessor, mas considerou que não é conveniente tratar Zampolli como persona non grata. “Colocar como persona non grata pode ser muito mal interpretado por um governo americano cujo laço, negócios e diplomacia não vejo como conveniente comprometer neste momento.”
Reportagem – Eduardo Piovesan e Tiago Miranda
Edição – Pierre Triboli








