sábado, 13 de junho de 2026

Mosquitos da dengue com bactéria podem resolver surtos no mundo todo

Mosquitos da dengue com bactéria podem resolver surtos no mundo todo
Fidel Forato

Mosquitos da dengue com bactéria podem resolver surtos no mundo todo

A dengue é um problema de saúde cada vez mais global, e o número de casos não aumenta apenas no Brasil
. Na verdade, até países que não registravam casos deste tipo de arbovírus passaram a enfrentar essa ameaça, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Para especialistas, uma das soluções é infectar os mosquitos (os vetores) com uma bactéria conhecida como Wolbachia, o que vai reduzir a chance de transmissão da doença para humanos.

Para evitar novos surtos e mortes, o World Mosquito Program (WMP) infecta os mosquitos transmissores, como o Aedes aegypti
, com uma bactéria e os liberam aos milhões no meio ambiente.

Os insetos infectados se reproduzem com parceiros “selvagens”, transmitindo a Wolbachia para os descendentes. Ao longo das gerações, os insetos terão uma capacidade menor de transmitir a dengue aos humanos. Em testes bem-sucedidos ao redor do mundo, bilhões de mosquitos já foram infectados pela bactéria.


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O mais interessante é que a estratégia não ajuda a controlar apenas a dengue. “Os mosquitos com a Wolbachia têm uma capacidade reduzida de transmitir [inúmeros] vírus às pessoas, diminuindo o risco de surtos de dengue, zika, chikungunya
e febre amarela”, afirma o WMP, em nota.

Dengue e aquecimento global

A explicação por trás do aumento de casos da dengue no mundo está relacionada com o aquecimento global e a intensificação dos eventos climáticos extremos — como ondas de calor, inundações, tempestades severas e secas duradouras.

De forma simples, um planeta mais quente proporciona condições favoráveis para a reprodução dos mosquitos da dengue. As chuvas torrenciais também produzem novos criadouros. Vale destacar que 2023 foi o ano mais quente da história recente
.

Como resultado, a doença se intensifica onde é comum e se espalha para outros países. É isso o que está acontecendo, já que o aumento de casos de 2023 não foi observado apenas nos países endêmicos, como o Brasil, mas chegou até ao continente europeu. Por lá, a infecção não é estabelecida.

Seca também aumenta criadouros do mosquito

Só que a crise climática também aumenta o risco de doenças transmitidas por mosquitos de formas menos óbvias, lembra Katie Anders, epidemiologista e diretora de avaliação de impacto do WMP.

“Quando as famílias armazenam água em resposta à seca, isso pode aumentar os criadouros locais de mosquitos e o risco de doenças”, explica Anders. Além disso, “as mudanças no uso da terra também podem impulsionar a migração para as cidades, aumentando a população em risco de surtos de dengue e outras doenças transmitidas por mosquitos”, acrescenta.

Diante dessas possibilidades, a previsão da London School of Hygiene & Tropical Medicine (LSHTM) é que, em 2080, mais de oito mil milhões de pessoas estarão em situação de risco para a infecção da malária e da dengue. Para evitar essa previsão, é preciso investir em novas soluções, como a bactéria Wolbachia.

Como a bactéria Wolbachia funciona?

Diferente de outras estratégias disponíveis, o uso da bactéria Wolbachia não provoca nenhum tipo de modificação genética. Este patógeno ocorre naturalmente e mais de 50% dos insetos já vivem com ele.

Porém, analisando a bactéria, os cientistas descobriram que ela dificulta o processo de infecção por outros agentes infecciosos no inseto. Por exemplo, o mosquito com a Wolbachia tem menos chances de contrair o vírus da dengue. Por isso, a transmissão dessas doenças tende a cair em áreas onde a estratégia é adotada.

Se o mesmo A. aegypti
for infectado pelos dois patógenos, ocorrerá uma batalha interna por suprimentos, como o colesterol, substância associada com a sobrevivência dos dois agentes. Isso impede que o vírus da dengue se prolifere tão bem e, novamente, reduz as chances de transmissão para humanos.

Testes da estratégia

Segundo o WMP, a estratégia já foi ou ainda é testada em 14 países, o que envolveu a liberação de bilhões de mosquitos da dengue infectados. Inclusive, entre os anos de 2017 a 2019, o método foi avaliado em uma região no Rio de Janeiro, com parceria entre a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)
.

Neste estudo, foram liberados cerca de 67 milhões de mosquitos. Em consequência, foi possível observar uma redução de até 77% dos casos de dengue e 60% de chikungunya nos locais que receberam os A. aegypti
com Wolbachia.

Leia a matéria no Canaltech
.

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