Medicamentos conhecidos pelo uso no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2 estão sendo investigados por cientistas como uma possível alternativa para ajudar no controle da dependência de álcool e outras drogas. Estudos com substâncias como semaglutida e tirzepatida indicam resultados promissores, mas os pesquisadores ressaltam que ainda são necessárias novas evidências para confirmar a segurança e a eficácia desses medicamentos contra os vícios.
Conhecidos popularmente como canetas emagrecedoras, os fármacos atuam sobre mecanismos hormonais relacionados à saciedade e ao controle do apetite. A hipótese investigada é que também possam influenciar os circuitos cerebrais envolvidos na recompensa e na busca por substâncias que provocam prazer, reduzindo o impulso de consumir álcool ou outras drogas.
Um estudo publicado no British Medical Journal (BMJ), que analisou dados de aproximadamente 600 mil veteranos das Forças Armadas dos Estados Unidos com diabetes tipo 2, identificou uma associação entre o uso de medicamentos dessa classe e a redução do risco de desenvolver transtornos relacionados ao consumo de álcool, cocaína, nicotina e opioides. Os resultados ampliam as possibilidades de pesquisa, mas não comprovam, por si só, que esses medicamentos sejam eficazes no tratamento de pessoas que já apresentam dependência.
Outra pesquisa, publicada em 2024 na revista científica The Lancet, avaliou 108 participantes com transtorno por uso de álcool de moderado a grave durante 26 semanas. Entre os participantes que receberam semaglutida, houve redução de 41% nos dias de consumo excessivo de bebidas alcoólicas. No grupo que recebeu placebo, a diminuição foi de 26%.
Os resultados chamaram a atenção de especialistas porque sugerem que os efeitos desses medicamentos podem ir além do controle do peso e da glicemia. Entretanto, os estudos ainda têm limitações, e a redução do consumo não significa necessariamente que o paciente tenha alcançado a abstinência ou superado a dependência.
A farmacêutica Eli Lilly, responsável pelo desenvolvimento da tirzepatida, também investiga o potencial dessa abordagem. A empresa conduz estudos com a brenipatida, uma molécula experimental da mesma classe terapêutica, para avaliar seu uso no tratamento do transtorno por consumo de álcool. Os resultados estão previstos para 2028.
A expectativa dos pesquisadores é que ensaios clínicos mais amplos e rigorosos permitam determinar quais pacientes poderiam se beneficiar dessa abordagem e em quais condições. Até lá, os resultados devem ser interpretados como evidências preliminares, e não como confirmação de um novo tratamento para os vícios.
