Quase um em cada quatro brasileiros que já usaram ou usam medicamentos injetáveis da classe dos agonistas de GLP-1 para emagrecer relatou ter recorrido aos produtos sem prescrição médica. O dado é de um estudo publicado em agosto de 2026 no International Journal of Obesity, que também identificou maior frequência de automedicação entre pessoas sem obesidade.
A pesquisa ouviu 860 adultos por meio de um questionário on-line. Entre os participantes, 23,8% relataram uso sem receita. Como o levantamento foi realizado com pessoas que já haviam utilizado esses medicamentos para perda de peso, o resultado não representa necessariamente a proporção de toda a população brasileira que pratica automedicação.
O cenário reforça os riscos de utilizar medicamentos como Ozempic e Mounjaro por conta própria, sem avaliação das condições de saúde e acompanhamento profissional. Embora fármacos dessa classe possam ter indicações clínicas específicas, a escolha do tratamento depende do histórico e das necessidades de cada paciente.
No livro A Dieta do Salgado, o cardiologista Elson Paulozzi Nunes aborda cinco pontos de atenção relacionados ao uso inadequado dessas medicações: possíveis impactos durante o desenvolvimento de adolescentes e jovens, agravamento de transtornos alimentares, banalização do tratamento da obesidade, recuperação do peso após a interrupção e perda de massa magra.
Entre adolescentes e jovens, a preocupação envolve a possibilidade de restrições nutricionais inadequadas durante uma fase importante do desenvolvimento físico. Já em pessoas com transtornos alimentares ou submetidas à pressão estética para perder peso, o uso sem acompanhamento pode agravar uma relação prejudicial com a alimentação e com a própria imagem corporal.
Outro alerta é tratar medicamentos desenvolvidos para indicações específicas como soluções exclusivamente estéticas. A obesidade é uma doença crônica e complexa, e o tratamento deve considerar fatores clínicos, comportamentais e ambientais. A indicação de um medicamento não deve ser baseada apenas no desejo de perder peso.
A interrupção do tratamento também exige planejamento. Uma extensão do ensaio clínico STEP 1, publicada em 2022, acompanhou participantes que interromperam o uso de semaglutida após 68 semanas. No ano seguinte, eles recuperaram, em média, cerca de dois terços do peso que haviam perdido durante o tratamento. O resultado reforça a importância de estratégias de acompanhamento de longo prazo.
A perda de peso também pode incluir redução de massa magra, como músculos, além de gordura corporal. Por isso, acompanhamento nutricional, alimentação adequada e exercícios de força, quando indicados, podem integrar o plano de cuidado para preservar a funcionalidade e a saúde muscular.
Fonte da pesquisa: International Journal of Obesity — levantamento sobre automedicação com agonistas de GLP-1 no Brasil.