Um erro de identificação que persistiu durante anos levou uma médica de Dourados a ser presa por engano no Aeroporto Internacional de Campo Grande, em agosto. Ana Paula Nunes dos Santos foi confundida com outra mulher, também chamada Ana Paula Nunes dos Santos, condenada por envolvimento com uma organização criminosa ligada ao tráfico de drogas.
As duas mulheres nasceram no Pará e têm nomes de pai e mãe semelhantes, mas possuem diferenças importantes nos dados pessoais. A médica nasceu em 1999, em Redenção (PA), enquanto a verdadeira ré nasceu em 1988, em Santana do Araguaia. Os nomes completos dos pais e os CPFs também são diferentes.
Mesmo assim, os dados da médica foram associados ao processo da Operação Fim de Rota, investigação conduzida pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) que desarticulou uma organização responsável pelo envio de drogas para outros estados. Segundo os autos, o grupo movimentou pelo menos R$ 240 mil e teve 13,5 toneladas de maconha apreendidas.
A mulher que realmente respondia ao processo foi condenada a 3 anos e 6 meses de prisão. Ela chegou a ser intimada, apresentou defesa por meio de advogado e participou do processo judicial. Apesar disso, os dados da médica permaneceram vinculados à ação e chegaram a ser utilizados na expedição do mandado de prisão.
O erro só veio à tona quando Ana Paula desembarcou em Campo Grande, no dia 4 de agosto, após uma viagem a Salvador. Ela estava acompanhada do marido e da filha de seis meses quando foi abordada pela Polícia Federal. O mandado de prisão continha seus dados pessoais e CPF, o que resultou na detenção.
“Eu insisti que era a pessoa errada. Entrei em desespero, porque sabia que não tinha cometido nenhum crime. Fui separada da minha bebê e do meu esposo e levada para a delegacia”, relatou a médica, segundo a Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul.
Ana Paula passou duas noites detida e, após a audiência de custódia, foi liberada, mas precisou utilizar tornozeleira eletrônica por 19 dias. A medida só foi retirada depois que a Defensoria Pública comprovou judicialmente que ela era uma pessoa diferente da ré que havia respondido ao processo.
Além do constrangimento, a médica teme consequências profissionais. Formada em Medicina no Paraguai, ela busca a revalidação do diploma no Brasil e já foi aprovada na primeira etapa. Como o processo criminal ainda teria registros associados ao seu nome, ela teme dificuldades na apresentação de certidões exigidas para o registro profissional.
Ana Paula também é servidora pública municipal em Dourados e afirma que a confusão poderia trazer reflexos sobre o cargo. Agora, busca a retirada definitiva de seus dados da ação penal e pretende pedir indenização pelos danos causados pela prisão indevida.