Mato Grosso do Sul se tornou uma das principais portas de entrada no Brasil para canetas emagrecedoras contrabandeadas. Cerca de 60% do material apreendido pela Polícia Federal no país está relacionado ao Estado, segundo dados obtidos pelo jornal O Globo por meio da Lei de Acesso à Informação. O avanço acompanha a expansão do mercado clandestino de medicamentos à base de GLP-1, como semaglutida e tirzepatida.

Os números mostram a dimensão do crescimento. A Polícia Federal registrou 9 ocorrências de apreensão em 2024, 335 em 2025 e 758 somente entre janeiro e maio de 2026, período em que foram apreendidas aproximadamente 175 mil unidades. Na comparação com o mesmo intervalo do ano anterior, o número de ocorrências cresceu cerca de 20 vezes.

A rota utilizada pelos contrabandistas acompanha caminhos já conhecidos pelas forças de segurança. Produtos que entram principalmente pelo Paraguai passam por Mato Grosso do Sul e Paraná antes de seguir para grandes centros consumidores, como São Paulo e Rio de Janeiro. As cargas também podem ser transportadas por avião ou enviadas por encomendas postais. Segundo a PF, criminosos utilizam fracionamento de mercadorias, ocultação em veículos e divisão do transporte entre diferentes pessoas para dificultar a fiscalização.

Uma das maiores apreensões recentes ocorreu na semana passada, quando cerca de 7 mil ampolas de tirzepatida de origem paraguaia foram encontradas escondidas em uma carga que também transportava centenas de celulares e notebooks. Segundo as informações divulgadas, a mercadoria foi avaliada em aproximadamente R$ 2 milhões.

O crescimento do comércio irregular ocorre paralelamente ao aumento das notificações de efeitos adversos relacionados a medicamentos dessa categoria. Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apontam 257 registros em 2023, 449 em 2024 e 1.122 em 2025.

A Anvisa, porém, ressalta que os números não permitem afirmar que as reações estejam diretamente relacionadas a produtos contrabandeados. As notificações recebidas pela agência podem envolver medicamentos regulares, manipulados ou irregulares, sem que seja possível identificar em todos os casos a origem do produto utilizado.