quinta-feira, 9 de julho de 2026

Busca por tratamento contra vício em apostas cresce 140% no SUS; mais de 500 mil já pediram bloqueio em bets

O avanço das apostas on-line no Brasil tem refletido diretamente na saúde pública. Nos últimos cinco anos, a procura por atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS) por problemas relacionados à dependência de jogos eletrônicos aumentou quase 140%, segundo dados apresentados pelo Ministério da Saúde durante audiência pública na Comissão de Desenvolvimento Econômico da Câmara dos Deputados.

O crescimento ocorre em meio ao aumento do número de brasileiros que admitem ter perdido o controle sobre as apostas. De acordo com o Ministério da Fazenda, mais de 500 mil pessoas já solicitaram a exclusão por tempo indeterminado das plataformas de bets por meio da ferramenta de autoexclusão disponível no portal Gov.br.

As informações foram apresentadas durante debate solicitado pelo deputado federal Vander Loubet (PT-MS), que defende, junto com outros parlamentares do partido, o Projeto de Lei 1.808/2026, que propõe a proibição das apostas on-line no país.

Representando o Ministério da Saúde, Marcelo Dias explicou que o aumento da demanda levou o governo federal a criar um serviço de atendimento específico para pessoas com problemas relacionados aos jogos dentro da plataforma Meu SUS Digital. Antes do atendimento, o usuário responde a um autoteste que avalia o nível de dependência.

Segundo ele, a rápida expansão das plataformas de apostas, especialmente durante a pandemia de Covid-19, favoreceu o crescimento dos casos de ludopatia — transtorno caracterizado pelo comportamento compulsivo de apostar.

“O jogador costuma ser estimulado pelas primeiras vitórias. Quando começam as perdas, passa a acreditar que conseguirá recuperar o dinheiro apostando mais, criando um ciclo de endividamento e dependência”, explicou o representante da pasta durante a audiência.

O Ministério da Fazenda informou que também intensificou a fiscalização do setor após a regulamentação das apostas esportivas. Entre as medidas adotadas está o combate à publicidade que apresenta as bets como forma de complementar renda e o estudo de mecanismos usados pelas plataformas para incentivar novas apostas.

Segundo o representante da pasta, Leandro Lucchesi, o governo identificou estratégias conhecidas como “quase ganho”, quando o apostador acredita que esteve muito próximo da vitória, e o chamado “ganho negativo”, situação em que o sistema comemora uma aposta mesmo quando o jogador recupera apenas parte do valor investido e termina com prejuízo.

Dados do Ministério da Fazenda apontam que o Brasil tinha pouco mais de 25 milhões de apostadores em 2025, o equivalente a cerca de 18% da população adulta. A maioria é formada por homens entre 18 e 50 anos. Somente no ano passado, as perdas líquidas dos jogadores chegaram a aproximadamente R$ 38 bilhões. Apesar de metade dos apostadores gastar até R$ 50 por mês, cerca de 20% desembolsaram aproximadamente R$ 1 mil mensais em apostas.

O governo também estuda a criação de uma classificação dos jogos por nível de risco e indicadores que permitam acompanhar o grau de endividamento provocado pelas apostas, como forma de fortalecer políticas públicas de prevenção e tratamento da dependência.

 

Foto: Joedson Alves/Agência Brasil

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