quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Temporada de montanha: Ep2

Cheguei em Santiago com Wellington (Well) na tarde de 23 de dezembro e fomos recebidos por José, o simpático senhor de cerca de 60 anos, proprietário do Hostel San Benito em Providencia. O hostel, uma casa ampla adaptada, tinha vários quartos no térreo, cozinha, banheiros externos, um quintal com grama sintética e uma piscina de lona. José morava no segundo andar, e Cecília, a responsável pela manutenção, era muito atenciosa e apreciava nossas conversas sobre a história e geografia andina.

O local estava tranquilo, ocupado apenas por nós e César, um chileno desempregado, que morou no Brasil e compartilhava nosso gosto por música e culinária. José nos indicou um mercado próximo, ideal para compras econômicas. Cansados, Well e eu fomos até lá, garantindo nosso jantar, ravioli com molho branco e um vinho chileno com ótimo custo-benefício.

O dia seguinte foi dedicado a tarefas essenciais: trocar dinheiro (necessário para pagar o hostel e as mulas) e resolver um problema burocrático com a autorização para meus guias dirigirem meu carro entre Chile e Argentina. Na fronteira, descobri que a autorização que eu havia feito no Brasil era inválida para o Chile.

Caminhamos até o centro de Santiago, passando pelo Palácio de La Moneda. Tentei resolver o problema em cartórios: um disse que era impossível, outro sugeriu um apostilamento na Embaixada do Brasil, que, segundo informações iniciais, estaria perto. O Google Maps nos enganou, e a embaixada real ficava longe. Fomos de metrô, mas já estava fechada. Fomos orientados de que reabriria apenas no dia 26, após o Natal. Voltamos ao hostel para passar a véspera com José e sua família, que nos convidaram para um churrasco.

Passamos o Natal com José, Cecília, César e o filho de José. Embora eu sempre associe o Natal à família, há anos a semana de recesso de fim de ano é crucial para minhas expedições nos Andes. Era o caso do Cerro Plomo, que dura 8 dias, encaixando-se perfeitamente no período de folga de muitos clientes.

O dia 25 foi parado, com tudo fechado. Aproveitamos para trabalhar nos cardápios da expedição e finalizar a lista de compras. T ambém escrevi o primeiro relato da aventura. Já na madrugada do dia 26, fui buscar Kaynã, meu guia principal da Soul Outdoor, no aeroporto.

Na manhã do dia 26, Kaynã e Well fizeram as primeiras compras após definirmos o planejamento. Eu retornei à Embaixada do Brasil para a questão da autorização, mas descobri que o atendimento era 100% online e exigia agendamento. Frustrado, tentei resolver a situação pela internet, digitalizando a autorização e pagando a taxa do serviço, apenas para ser informado de que a embaixada não realizava apostilamento. A desorientação e a perda de tempo e dinheiro foram grandes, forçando-me a reformular toda a logística, inclusive passagens aéreas, e a ter que atravessar o carro pessoalmente nas fronteiras.

O retorno ao hostel trouxe um alívio: o grosso das compras estava feito, embora as caixas empilhadas gerassem uma grande bagunça. Para os frescos (carnes, verduras e queijos), precisaríamos da geladeira de José. Cansados da correria, encerramos o dia com mais um churrasco no quintal.

O primeiro cliente, Davi, chegou no dia 27. Fui buscá-lo no aeroporto e paguei a hospedagem dos clientes no hotel. Contudo, ao retornar ao hostel, notei uma mudança na atmosfera: Cecília estava incomodada. As causas eram a montagem das caixas de comida para as mulas, o uso excessivo da geladeira e, principalmente, o fato de estarmos usando e sujando mais de um banheiro. Recebi uma bronca e precisei usar meu jogo de cintura para contornar a situação.

Neste mesmo dia, o time ficou completo com a chegada da nossa última guia, Yudith. Ela é uma guia peruana super técnica, com quem Maria e eu já havíamos escalado o Alpamayo e o Quitaraju.

No dia seguinte, os demais clientes chegaram. Seguimos o ritual de checagem de equipamentos e, à noite, fizemos um briefing em um restaurante. A parte mais complicada foi, como sempre fora do Brasil, dividir a conta, o que invariavelmente me deixa com o valor residual a pagar.

A segunda-feira, dia 29, foi dedicada ao caótico aluguel de equipamentos. Tivemos que recorrer a duas lojas, pois não havia tudo em um só lugar. A logística foi ainda mais complicada por clientes que reservam, mas acabam comprando o equipamento. No Chile, reservas pagas online não têm devolução. Além disso, as lojas não abriam no domingo, e se devolvêssemos no sábado seguinte, seriam cobrados dois dias extras, resultando em um prejuízo de mais de 500 dólares. A partir desse momento, comecei a pensar em um plano para evitar esse custo.

O principal desafio do dia foi a falta de uma bota de alta montanha no número do Carlos, que não havia feito reserva. Felizmente, conseguimos uma em cima da hora em outro local. Foi um prazer conhecer Carlos, que, acompanhando meu trabalho, fazia sua primeira alta montanha, é gratificante influenciar positivamente as pessoas.

Com tudo finalizado, voltamos ao hostel. Tivemos que fechar todas as caixas de comida, conferir as malas, calcular o número exato de mulas para o arriero, colocar tudo no carro, e arrumar nossas coisas. Tudo pronto para o despertar às 6h da manhã e, finalmente, começar a expedição.

turismo.ig.com.br