A retirada de uma caixa d’água centenária localizada às margens da ferrovia em Juiz de Fora (MG), iniciada na última quarta-feira (27), provocou protestos e abriu uma discussão sobre a preservação da memória ferroviária da região. O reservatório abastecia as antigas locomotivas a vapor, integrando o conjunto da estação local, hoje sem uso funcional.
Tombamento e situação atual
De acordo com o jornalista Carlos Ferreira, um decreto publicado em julho de 2002 reconheceu a Estação Ferroviária de Chapéu D’Uvas como patrimônio histórico do município.
A caixa d’água, por ter servido ao abastecimento das locomotivas, também faria parte desse conjunto. Apesar da proteção legal, o prédio, inaugurado no século XIX, sofre com a deterioração e não passou por restaurações recentes.
Além disso, Chapéu D’Uvas possui uma relevância histórica mais ampla. Foi um dos primeiros núcleos de povoamento da região e está localizado no traçado da Estrada Real.
Sua estação ferroviária foi inaugurada em 1877, funcionando como última parada de Juiz de Fora para quem seguia em direção a Belo Horizonte. A ferrovia, atualmente sob concessão da MRS Logística, ainda corta o distrito, onde também se encontra a barragem responsável por regular a vazão do Rio Paraibuna.
Valor cultural da ferrovia
As caixas d’água, como a que está sendo retirada, eram presença obrigatória ao longo das linhas férreas.
Elas abasteciam as chamadas “marias-fumaças”, locomotivas movidas a vapor de lenha ou carvão. Com a modernização do transporte, foram substituídas por locomotivas a diesel ou sistemas eletrificados, perdendo a função original. Em diversas cidades brasileiras, porém, estruturas semelhantes foram recuperadas e incorporadas ao patrimônio cultural.
A estação de Chapéu D’Uvas também guarda passagens marcantes da história local. O prédio chegou a ser reformado em diferentes ocasiões, com propostas de uso comunitário e até policial, mas as obras nunca foram concluídas.
Registros indicam que a estrutura foi palco de acidentes ferroviários graves no final do século XIX e durante a década de 1930, além de enchentes que chegaram a interromper o tráfego de trens de passageiros.
Ainda hoje, é possível observar inscrições originais na fachada, como o dístico “CHAPEO D’ UVAS”, preservado por décadas apesar do desgaste.
Debate sobre preservação
Para o jornalista Vanderlei Dornelas Tomaz, a retirada definitiva da caixa d’água significaria uma perda irreversível.
Ele defende que a estrutura seja restaurada e recolocada em seu lugar de origem, preservando a identidade local.
“É um monumento que representa a história de Juiz de Fora e da ferrovia brasileira. A preocupação com a corrosão é compreensível, mas a solução não pode ser simplesmente destruir. É preciso restaurar e devolver à comunidade esse símbolo”, afirmou.
O debate em torno da preservação não se limita a Chapéu D’Uvas.
Outras estações do município, como as de Benfica, Francisco Bernardino e Dias Tavares também foram tombadas por decretos recentes. Esses bens foram reconhecidos não apenas pela arquitetura, mas também pela importância social, econômica e cultural que tiveram no desenvolvimento regional.
Patrimônio ameaçado
Enquanto em países como a Inglaterra há políticas consolidadas de preservação de ferrovias, no Brasil as iniciativas são mais pontuais, muitas vezes restritas a municípios ou entidades isoladas.
Essa realidade se reflete em Juiz de Fora, onde a memória ferroviária permanece sem manutenção sistemática.
A própria origem do município está ligada diretamente à expansão do café e à abertura do Caminho Novo, rota que ligava a Corte às Minas Gerais e passava pelas margens do Rio Paraibuna.
Povoados agrícolas surgiram ao longo desse caminho, dando origem à cidade. O transporte ferroviário, implantado no século XIX, foi determinante para a integração econômica e social da região, acelerando o crescimento de Juiz de Fora.
A reportagem procurou a Prefeitura de Juiz de Fora e a MRS Logística para esclarecimentos sobre a operação de retirada da caixa d’água, questionando se há planos de restauração ou preservação do equipamento.
Até o momento da publicação, não houve retorno de nenhum dos dois órgãos. O texto será atualizado caso haja algum pronunciamento.
Parte das informações desta reportagem foi reunida a partir de registros históricos de William Inkamp Martins, Jorge A. Ferreira, José H. Buzelin, Manoel Monachesi, Gutierrez L. Coelho e Pedro Paulo Resende, além de documentos oficiais da Prefeitura de Juiz de Fora e reportagens publicadas em O Estado de S. Paulo (1890, 1939 e 1942). Também serviram de referência obras clássicas como Vias Brasileiras de Comunicação, de Max Vasconcellos (1928).