sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Resgate no Pico Paraná: Uma realização esportiva acidental

O surpreendente e espetacular desfecho das buscas por  Roberto Farias Thomaz, jovem de 19 anos desaparecido no Pico Paraná em 1º de janeiro, marcou o fim de uma provação de cinco dias. Sozinho, sem comida e enfrentando chuva, calor e umidade, o rapaz conseguiu descer a montanha por um vale remoto e sem trilhas, caracterizado por cachoeiras, vegetação densa e um desnível significativo. Sua jornada de sobrevivência o levou a uma fazenda na face leste da Serra do Mar, na planície litorânea de Antonina.

Roberto foi abandonado por sua parceira de trilha, Thayane Smith, que fez declarações controversas ao justificar sua decisão de deixá-lo para trás, alegando que ele estava “muito lento”. Ela acrescentou que priorizou descer a montanha mais rapidamente porque “este era o estilo de vida dela”. A atitude e as declarações de Thayane geraram suspeitas no público, com acusações infundadas de que ela poderia ter empurrado Roberto em um precipício para roubar seu celular e carteira. Felizmente, essa não foi a realidade dos fatos.


O vale do Cacatu

O Pico Paraná é uma montanha imponente, delimitada a oeste por dois grandes rios, o Cotia e o Cacatu, que o separam das montanhas adjacentes, o Caratuva e o Pico do Itapiroca. Uma crista afiada liga o Pico Paraná, a montanha mais alta do Sul do país, a estas montanhas, que formam uma cadeia frontal vista de oeste para leste. A sela que separa estes rios é a rota natural para montanhistas que vêm do Primeiro Planalto Paranaense, permitindo-lhes alcançar o cume do Pico Paraná com uma ascensão menos exigente do que a rota pelo litoral.

No ponto exato do “elo de ligação” – nome dado por Maack, Staam e Mysing, que o utilizaram em agosto de 1941 para a ascensão ao Pico Paraná –, há um acesso descomplicado à porção superior do vale do Cacatu.

Neste trecho, o leito do vale é predominantemente pedregoso, com árvores de copas densas que fornecem sombra abundante a uma clareira. Esta área funciona como uma trilha natural que, no entanto, é efêmera: ela se extingue no ponto onde a água do rio começa a fluir em direção ao litoral.

A partir desse local, inicia-se um percurso de aproximadamente 1300 metros de desnível vertical. O vale, profundamente encaixado, é caracterizado por vegetação exuberante, múltiplas cachoeiras e corredeiras.

A descida do Rio Cacatu representa um significativo desafio esportivo. Em 1997, uma expedição exploratória chamou a atenção, quando o trio de montanhistas — Lauro Freitas e os irmãos Giancarlo e Gustavo Castanharo, conhecidos como os lendários “Cover” e “Tavinho”(todos até hoje ativos e proeminentes) — realizou a façanha.

Este feito foi noticiado por Henrique Schmidlin, o “Vitamina”, na Gazeta do Povo, destacando-se por ser apenas a segunda vez na história que o imenso vale era percorrido. Desde 1997, o Rio Cacatu tem sido palco de outras explorações, lideradas por montanhistas e corredores de montanha experientes.

Sobrevivendo a uma descida difícil e mortal

A descida de um jovem, sozinho e sem mantimentos, que já estava lento na trilha principal do Pico Paraná, por aquele vale é mais do que uma luta pela sobrevivência: é uma “realização esportiva acidental”. A história ganha contornos dramáticos, pois ao pular uma cachoeira, Roberto perdeu uma de suas botas e seus óculos. Mesmo descalço em um pé e com a visão comprometida, ele conseguiu percorrer os mais de 20 km do vale extremamente acidentado. Seu destino foi a Central Geradora Hidrelétrica (CGH) Cacatu, uma pequena usina no sopé da Serra do Mar, no município de Antonina.

O Vale do Cacatu, em 2021, foi palco de outra operação de busca, desta vez por Maicon Batista. Após uma queda na trilha do Pico Paraná, Maicon se perdeu no vale, mas conseguiu abrigar-se entre rochas. Foi resgatado após seis dias, depois de ouvir os bombeiros e gritar por socorro. É urgente e essencial que o Vale do Cacatu seja sinalizado para prevenir que outras pessoas sigam por esse percurso perigoso.

O caso de Roberto Farias Thomaz vai além do relato de um resgate bem-sucedido, transformando-se em um poderoso testemunho da resiliência humana e da força da vontade de viver diante de um ambiente natural implacável. Sua “realização esportiva acidental”—que replicou a travessia “Terra Boa x Cacatu”, idealizada pelos irmãos Castanharo e Lauro Freitas, ao iniciar uma caminhada na BR-116, alcançar o cume do Pico Paraná e descer o perigoso vale—ressalta a premente necessidade de cautela e preparo nas trilhas de montanha da Serra do Mar. Simultaneamente, eterniza a história de um jovem que, apesar de ter sido abandonado passando mal e ter perdido seus pertences essenciais, encontrou em si a capacidade de sobreviver e regressar.

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