Essa semana um episódio envolvendo influenciadores de viagem chamou atenção e expôs um problema muito maior do que o plágio em si. Um casal brasileiro copiou (palavra por palavra) o texto de uma criadora estrangeira, inscreveu o conteúdo como se fosse próprio e chegou a vencer uma categoria do Prêmio Europa de Comunicação. A autora original descobriu, denunciou, apresentou as provas, e o troféu foi retirado.
Até aqui, trata-se de um caso grave de violação de autoria. Mas, para mim, a reflexão vai além disso.
No ano passado, eu estive entre os três finalistas desse mesmo prêmio, concorrendo com profissionais enormes: um colunista da Folha de S.Paulo e uma jornalista da CNN. Gente séria, preparada, compromissada com a informação. Este ano, mesmo convidado novamente, não entrei, e tudo bem. É parte do jogo. O problema é perceber que, enquanto profissionais estudam, produzem, pesquisam e constroem conteúdo com responsabilidade, há pessoas sem formação alguma, sem preparo técnico e sem qualquer vínculo com a ética, ocupando o mesmo espaço. E neste caso específico, copiando conteúdo alheio e apresentando como trabalho próprio.
A Berg (empresa responsável pela organização e pelas inscrições), me enviou uma mensagem sobre o ocorrido: Segundo eles, a ETC (entidade internacional responsável pela análise final) também ficou chocada com a situação. Eles afirmam que o prêmio foi retirado em menos de 72 horas após a cerimônia, e que isso serviu como lição para todos os envolvidos. A ETC entrou em contato diretamente com a autora original assim que soube da denúncia, ouviu as duas partes, e corrigiu oficialmente o resultado na semana seguinte. A organização também informou que o prêmio passará por melhorias no processo de seleção no próximo ano, para evitar que algo assim volte a ocorrer.
A Berg destacou ainda que não faz os posicionamentos públicos, pois essa função é da ETC, mas reforçou que “o prêmio estará mais atento a isso no futuro”. Ou seja: houve erro, houve correção, e houve compromisso de mudança. Mas, mesmo assim, a questão permanece. Estamos vivendo uma época em que qualquer um vira “especialista”. Basta viajar algumas vezes, viralizar um vídeo, vender uma fórmula milagrosa ou até alegar ter escrito dezenas de livros sem nunca ter escrito nenhum.
Tem gente vendendo cursos com promessas impossíveis, como “viajar barato em dias específicos da semana”, e gente levando seguidores para trilhas e montanhas sem preparo técnico. E agora, gente que copia conteúdo e vence prêmio. Tudo isso tem o mesmo denominador: a falsa autoridade normalizada.
E quando isso chega ao turismo, os danos são reais. Viajar envolve regras, segurança, documentação, legislação, comportamento em outros países. Informação errada tem consequência. Por isso esse caso incomoda tanto. Não pelo prêmio, mas pelo que ele revela sobre o momento em que estamos vivendo. Profissionais dividindo espaço com quem copia. Trabalho sério disputando atenção com improviso. Gente preparada sendo colocada no mesmo balaio de quem nunca estudou.
A pergunta que fica é simples: quem estamos chamando de influenciador? E por quê?
Porque, se hoje qualquer um pode parecer especialista, mais do que nunca é fundamental saber quem realmente é!








