A recente e dramática busca por Roberto Tomás Farias no Pico Paraná, logo após o réveillon de 2026, fez mais do que apenas mobilizar equipes; ela reacendeu com urgência o debate sobre a gestão do Parque Estadual da Serra do Mar. O que se esperava ser um feriado de celebração na montanha, transformou-se em um lembrete flagrante do abandono que aflige esse importante parque estadual, pondo em xeque questões vitais como a política de visitação, a segurança dos montanhistas e a preservação ambiental.
Os problemas do Pico Paraná não são recentes. Sua própria criação, no início dos anos 2000, é controversa. Ao ser estabelecido a partir da demarcação de terras devolutas, o Parque Estadual herdou uma configuração territorial “estranha”, que, até hoje, deixa montanhas importantes fora de seus limites. Mais crítica do que sua origem, no entanto, é a explosão da visitação. O que era um parque para poucos, com trilhas fechadas e difíceis que exigiam feriados prolongados para serem vencidas, transformou-se, desde o início do século, em um destino de alta frequência.
Essa popularidade, sem o devido suporte de gestão, trouxe uma série de consequências negativas: acúmulo de lixo, trilhas mal cuidadas e erosionadas, e um aumento preocupante no número de pessoas perdidas ou feridas. Sem exceção, todo fim de semana gera um incidente que exige a intervenção do poder público ou, o que é mais comum, a dedicação de voluntários.
A solução para a crise começa com uma única e fundamental obrigação que o Instituto Água e Terra (IAT) do Paraná negligencia há décadas: a criação do Plano de Manejo. Criado em 2002, este parque ainda não possui o documento que deveria conter as diretrizes básicas de gestão ambiental e de uso público. O Plano de Manejo é a espinha dorsal de qualquer unidade de conservação, definindo zonas de uso, capacidade de carga e infraestrutura. Sua ausência é o sintoma mais grave da inação.
É verdade que, para aplacar a situação emergencial, foi desenvolvido um plano emergencial de uso público. Mas um remendo não substitui a fundação. E embora muitos montanhistas tradicionais, apegados à liberdade e à “anarquia” da montanha, prefiram a ausência de regras, a realidade da alta visitação massiva no Pico Paraná torna a regulamentação não apenas desejável, mas indispensável para garantir a segurança e a sobrevivência do ecossistema.
A repercussão do resgate foi tão grande que chegou à Assembleia Legislativa do Paraná, que se propôs a estudar novas leis para a segurança nas montanhas. Mas, como bem sabemos, leis já existem; o que falta é a aplicação e, principalmente, a estrutura de gestão que emana do Plano de Manejo.
A comparação internacional é um soco no estômago. Viajo o mundo e frequento parques nacionais: os brasileiros estão entre os mais bonitos, mas, inegavelmente, possuem a pior infraestrutura. Países em desenvolvimento, como Uganda, Nepal, Bolívia, Argentina e Peru, conseguem valorizar seus cartões-postais naturais com um investimento modesto, gerando renda e trabalho para as comunidades do entorno, e oferecendo uma experiência de qualidade ao visitante. No Brasil, o patrimônio do montanhismo nacional está abandonado, aguardando um plano que é, por lei, obrigatório há mais de vinte anos.
A hora de se inspirar em modelos de sucesso e de dar uma solução definitiva para a gestão do Pico Paraná é agora. O maior pico do sul do Brasil merece mais do que a beleza bruta; ele exige o manejo responsável que o transformará de um local de risco em um exemplo de conservação e turismo sustentável.









