Para quem fala português, o nome inevitavelmente chama atenção e provoca risadas. A associação é quase automática. Mas, deixando o nome de lado, Boquete é uma cidade real, charmosa e extremamente interessante, localizada no oeste do Panamá, que revela um lado do país completamente fora do radar da maioria dos brasileiros.
E isso não acontece por acaso. O Panamá é um destino historicamente subestimado pelo público brasileiro. Para muita gente, o país existe apenas como ponto de conexão aérea para voos rumo aos Estados Unidos, especialmente para destinos como Miami, Orlando ou Nova York. Poucos param para olhar o Panamá como destino final, e menos ainda para explorar suas regiões fora da capital.
Boquete fica na província de Chiriquí, próxima à fronteira com a Costa Rica, a cerca de 480 km da Cidade do Panamá. Enquanto a capital é quente, urbana e movimentada, Boquete oferece um cenário completamente diferente: montanhas, clima ameno ao longo do ano, natureza abundante e um ritmo de vida muito mais tranquilo.
Apesar da distância, chegar até lá é relativamente simples. O caminho mais comum é pegar um voo interno da Cidade do Panamá até David, capital da província, com duração média de 1 hora. A partir de David, são cerca de 45 minutos a 1 hora de carro até Boquete. Também é possível ir por terra, mas a viagem é longa, podendo levar entre 7 e 8 horas, o que faz a maioria dos viajantes optar pela combinação de avião e deslocamento curto por estrada.
É importante dizer: Boquete não é um destino de bate e volta. Justamente por isso, atrai um perfil de viajante que busca experiências mais profundas e menos apressadas. O ideal é ficar ao menos 2 ou 3 noites, aproveitando o clima, os passeios e a atmosfera da cidade sem pressa.
Entre as principais experiências estão trilhas em meio à natureza, cachoeiras, paisagens montanhosas, restaurantes charmosos e cafés locais. Mas um dos grandes protagonistas de Boquete (e que surpreende até quem já ouviu falar da cidade) é o café.
A região é referência mundial em café especial, especialmente pelo famoso Geisha (ou Gesha), considerado um dos grãos mais valorizados e premiados do planeta. Embora a variedade seja originária da Etiópia, foi em Boquete que o Geisha ganhou projeção internacional, passando a ser reconhecido como um café de altíssimo padrão e redefinindo o mercado de cafés especiais no mundo.
Esse reconhecimento não acontece por acaso. O café produzido em Boquete se beneficia de uma combinação rara de fatores naturais: altitudes elevadas, que variam entre 1.200 e 1.800 metros, clima ameno durante todo o ano, neblina frequente, chuvas bem distribuídas e solo vulcânico extremamente fértil, influenciado pela proximidade do Vulcão Barú, o ponto mais alto do Panamá. Essas condições fazem com que o grão amadureça mais lentamente, concentrando açúcares e desenvolvendo maior complexidade aromática.
O resultado são cafés com perfis sensoriais sofisticados, conhecidos por notas florais, frutas tropicais, mel, chá e acidez delicada, características que tornam o Geisha de Boquete altamente desejado por especialistas, baristas e cafeterias de alto padrão. Não à toa, alguns lotes já foram vendidos em leilões internacionais por valores altíssimos, sendo disputados por compradores da Ásia, Europa e Estados Unidos, o que transformou o café da região em um verdadeiro artigo de luxo gastronômico.
Para quem visita a cidade, o café deixa de ser apenas uma bebida e se transforma em experiência cultural e sensorial. Diversas fazendas da região oferecem visitas guiadas que mostram todo o processo, desde o plantio e a colheita manual dos grãos até a secagem, torra e degustação técnica. Essas experiências permitem entender por que o café de Boquete é tão valorizado e como ele se tornou um dos grandes símbolos da identidade local e da economia da região.
Boquete é o tipo de lugar que reforça como o Panamá vai muito além do canal e dos arranha-céus da capital. É um destino que combina natureza, clima agradável, gastronomia e qualidade de vida, mas que acaba sendo ainda mais subestimado justamente por estar dentro de um país que muitos brasileiros ainda não colocam na lista de viagens.









