De longe, estando na cordilheira dos Andes neste domingo, 4 de janeiro, observo à distância os acontecimentos na maior montanha do sul do Brasil, as buscas por Roberto Farias Thomaz, de 19 anos, que foi passar o réveillon na montanha e desapareceu. As conversas de bastidor, que recebo a cada hora mostra a tensão silenciosa que paira no ar. As buscas por Roberto atingiram hoje o quarto dia, e o tempo, um inimigo implacável, se torna um fardo cada vez mais pesado para todos os envolvidos.
Ao conversar com os integrantes do GOST (Grupo de Operações e Socorro Tático) e os voluntários do COSMO, percebo o cansaço nas falas, mas também uma determinação férrea. São cerca de 46 pessoas lá em cima agora, vasculhando fendas e grotas entre o cume e o Acampamento 1. A tecnologia tornou-se nossa maior aliada hoje; os bombeiros do Paraná fazem uso de sensores térmicos em aeronaves, uma tentativa desesperada de encontrar um sinal de calor humano em meio à vegetação densa e às rochas geladas.
O que mais intriga quem acompanha o caso são as circunstâncias do desaparecimento, ocorrido no primeiro dia do ano. Pelo que apurei com as autoridades, Roberto e uma amiga subiram para o Réveillon, mas a descida transformou-se em tragédia. Eles teriam se separado após uma discussão nas proximidades do Acampamento A2. É um detalhe que dói: Roberto ficou para trás, debilitado, sem comida e, crucialmente, sem telefone, que permaneceu com a companheira de trilha.
Ontem, a jovem que acompanhou Roberto foi levada para refazer o trajeto e apontar os locais exatos onde estiveram. Enquanto isso, a Polícia Civil trabalha nos bastidores para preencher as lacunas dos depoimentos, tentando entender por que dois jovens sem experiência em montanhismo decidiram subir o Pico Paraná em um período em que a visitação estava oficialmente proibida pelo IAT.
Relatos de alguns corredores de trilha que foram os últimos a ver Roberto vivo, descreveram um jovem cansado, mas que ainda caminhava. Agora, quatro dias depois, a montanha impõe o seu silêncio. Sem equipamentos adequados e enfrentando as noites frias da serra, a sobrevivência de Roberto é uma corrida contra o relógio que todos aqui torcemos para que ele vença.
Temporada de Resgates
O que deveria ser uma grande operação de busca em montanha tem se tornado, na verdade, uma rotina nos maciços do Sul e Sudeste brasileiro. Durante os meses de verão, fins de semana e feriados são marcados por operações semelhantes, com casos e circunstâncias recorrentes.
O verão é considerado baixa temporada para o montanhismo em grande parte do país devido a fatores climáticos. É uma época de calor intenso e chuvas frequentes. Em dias de céu aberto e sol forte, as altas temperaturas podem causar debilidade, exaustão, cefaleia e insolação. Por outro lado, com o passar do dia, as nuvens trazem consigo a chuva. Na montanha, ficar molhado é um risco que leva à redução da temperatura corporal e, consequentemente, à hipotermia. Paradoxalmente, é na época mais quente do ano que se registra o maior número de casos de hipotermia em ambientes montanhosos e isso é o que mais provoca resgates na montanha.
Outras experiências que aconteceram no Pico Paraná
O calor intenso no primeiro dia do ano pode ter causado a debilitação de Roberto no Pico Paraná. Por algum motivo, ele saiu da trilha e desapareceu nas encostas florestadas da montanha mais alta do sul do país. Com o passar do tempo e a chegada de chuvas e baixas temperaturas noturnas, os riscos de desfecho fatal aumentam consideravelmente.
O padrão atual é conhecido em resgates. Vítimas debilitadas, sentindo frio, buscam abrigo em locais de difícil visibilidade aérea, como grotas e entre pedras. Nesses esconderijos naturais, a exaustão pode fazer com que a pessoa perca a consciência, não conseguindo ouvir os socorristas que, muitas vezes, passam muito perto. É o que chamamos de “se esconder” sem querer.
Casos anteriores no Pico Paraná ilustram essa situação: Alexandre Maoski (2003) foi encontrado sem vida nessas condições, enquanto Maicon Batista (2021) foi resgatado com vida após seis dias.
Apesar da diminuição das chances a cada noite, a possibilidade de Roberto Thomaz ser encontrado vivo não é nula. Mantenho a torcida para que isso aconteça!
Recomendações importantes
Dadas as dificuldades impostas pelo verão, especialmente o risco de tempestades elétricas no alto das montanhas, não é recomendado realizar expedições longas ou difíceis que exijam pernoite neste período.
Para continuar praticando montanhismo com mais segurança:
- Opte por montanhas menores e faça incursões rápidas, começando bem cedo pela manhã (quando o tempo costuma ser mais estável).
- Retorne à base antes do meio-dia, horário em que as nuvens sobem e aumenta o risco de tempestades.
Precauções essenciais:
- Sempre leve roupas impermeáveis, agasalhos, lanterna e comida suficiente.
- Nunca esqueça de informar seu itinerário.
- Tenha seu celular carregado e uma bateria extra.
Praticar montanhismo no verão é sempre mais desafiador e perigoso. Seja cauteloso e evite confrontar o clima, pois você sempre estará em desvantagem.









