Great Again or Go Away?
O “America Great Again” e o Tarifaço: Como o Nacionalismo Econômico e a Fuga de Cérebros Podem Condenar os EUA ao Isolamento Tecnológico.
A política de tarifas agressivas e restrições migratórias implementadas pelos Estados Unidos sob o lema “America Great Again” não apenas impacta o comércio global, como cria um ambiente hostil para cientistas e pesquisadores estrangeiros—justamente o grupo que sustenta a liderança tecnológica do país. Enquanto Washington impõe barreiras comerciais e corta investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D), potências asiáticas como China, Japão e Coreia do Sul estão formando alianças estratégicas e atraindo talentos globais.
Nesse artigo, trago uma análise sobre o “tarifaço”* na competitividade americana, analiso a possível fuga de cérebros e seu efeito em setores críticos, e chamo a atenção para os prós e contras da mudança no modelo de financiamento de Pesquisa e Desenvolvimento Científico, do modelo público para o privado, e os riscos dessa transição. Por fim, demonstro como a aliança sino-japonesa-sul-coreana que há cinco anos não reunia, até buscarem agora uma reação em conjunto contra o Tarifaço, pode redefinir o equilíbrio de poder tecnológico.
A Corrida pela Hegemonia Tecnológica
A Guerra Comercial de Biden a Trump com a China e Seus Efeitos Imediatos
Em 2018, os EUA impuseram tarifas de até 25% sobre US$ 360 bilhões em importações chinesas, alegando práticas comerciais desleais (USTR, 2018). A China retaliou com tarifas sobre produtos agrícolas e manufaturados, afetando setores estratégicos:
– Agricultura: As exportações de soja dos EUA para a China caíram 37% entre 2017 e 2019 (USDA, 2020), beneficiando muito o Brasil.
– Tecnologia: Empresas como Apple e Tesla enfrentaram aumento de custos devido a tarifas sobre componentes eletrônicos (Bloomberg, 2019).
Um estudo do Peterson Institute for International Economics (PIIE, 2021) estimou que as tarifas custaram US$ 316 bilhões em perdas econômicas aos EUA até 2020.
Erosão da Vantagem Competitiva – O aumento dos custos de produção levou empresas a realocarem cadeias de suprimentos para fora dos EUA:
– Fuga de Investimentos: Apenas 15% das empresas que deixaram a China por pressão norte americana, optaram pelos EUA; a maioria migrou para Vietnã, México e Índia (Reshoring Initiative, 2022).
– Dependência Tecnológica: Os EUA ainda importam 40% de seus semicondutores da China (SIA, 2023).
Redução de Investimentos Públicos em P&D
Enquanto a China aumentou seus gastos em P&D para 2,4% do PIB em 2022, os EUA estagnaram em 2,8%—abaixo do pico de 3,1% na década de 1960 (NSF, 2023).
Fuga de Cérebros
O Isolamento Científico e Tecnológico dos EUA e a fuga de Cérebros:
Políticas como a suspensão de vistos H-1B (2020) e o aumento da burocracia para pesquisadores estrangeiros geraram um êxodo de talentos:
– Queda de 72% nos vistos H-1B para cientistas entre 2016 e 2021 (NFAP, 2022).
– 12% dos pós-doutorandos estrangeiros deixaram os EUA entre 2017 e 2022 (NSF, 2023).
Para Onde Estão Migrando Esses Cérebros?
– Canadá: Vistos de trabalho para tech aumentaram 40% (2020-2023).
– Alemanha: Atraiu 18% mais pesquisadores desde 2020 (DAAD, 2023).
– China: Oferece salários 30% maiores para especialistas em IA (MIT Tech Review, 2022).
Setores Mais Afetados pela Fuga de Talentos
Inteligência Artificial: -15% em inovação (2030) | Países mais Beneficiados: China, e Canadá
Biotecnologia: -10% em patentes (2025) | Países mais Beneficiados: Alemanha, Reino Unido
Semicondutores: -20% em avanços (2035) | Países mais Beneficiados: Taiwan, Coreia do Sul . Ainda que investimentos bilionários tenham sido anunciados por parte da Nvídia e da TSMC (Taiwan), nos EUA, há diversas implicações práticas de tempo de produção etc.
Na lógica reinante da nova política econômic americana, há um “axioma” referente a ineficiência do Estado e nesse bojo incluem o setor acadêmico. Entendem que a velocidade de resultado na produção científica e tecnológica não comporta o modelo tradicional de fomento público às instituições universitárias ou equivalentes. A entrega dos recursos para as mãos privadas, faz lembrar o financiamento público às indústrias bélicas e da aviação militar, especialmente no período da segunda guerra. Esse espírito belicoso é o que tem dado o tom das mudanças de um Império em vias de perder a sua hegemonia. Daí a mudança no modelo de financiamento do Público para o Privado, que já inclui uma significativa redução da totalidade do investimento. Isso será intensificado mas já ocorre desde a administração anterior. Para se ter uma idéia, o orçamento federal para P&D caiu de 1,2% do PIB (2010) para 0,7% (2023) (AAAS, 2023).
A Enxurrada de Dinheiro Público na mão das Big Techs
As Big Techs mais favorecidas, com o financiamento público?
Nos últimos 10 anos, contratos públicos com Google, Amazon, Microsoft e Meta, somaram US$ 120 bilhões (Bloomberg, 2023), principalmente em:
– Defesa (IA militar);
– Infraestrutura de nuvem governamental.
Vejamos os valores e focos dos recursos mais recentes (2023):
| Google | US$ 40 bi | IA, Computação Quântica |
| Microsoft | US$ 27 bi | Nuvem, Segurança |
| Meta | US$ 35 bi | Metaverso, Realidade Virtual |
Mas quais são os Riscos e Potencialidades desse modelo de financiamento e liderança do setor privado na P&D?
✅ Vantagens:
– Agilidade (decisões mais rápidas que o governo).
– Foco em ROI – Retorno sobre o Investimento (tecnologias com aplicação imediata).
❌ Riscos:
– Abandono de pesquisa básica (sem retorno financeiro rápido).
– Monopólio tecnológico (padrões controlados por poucas empresas). Aqui a minha preocupação enquanto Humanista Digital se intensifica, visto que a Revolução Genética, a fusão entre Biologia e Inteligência Artificial, os imprevisíveis avanços e riscos da computação quântica, tenderão ao mínimo de regulação do Estado e potencializarão ainda mais a supremacia das Big techs independente da ética, apenas pela lógica tecnocentrista de controle da humanidade.
Japao, Coreia e China se Unem
Efeitos contrários da Guerra Fiscal e Tarifária Global do Governo Trump – A Aliança Sino-Japonesa-Sul-Coreana: Uma Nova Ordem Tecnológica?
Objetivos da Parceria
– US$ 500 bilhões em P&D conjunto até 2030;
– Padronização de 6G, carros elétricos e IA. Esses três segmentos atingem uma escala transversal nas cadeias globais de valor e a competitividade instalada é incomparavelmente superior a dos EUA. Apenas para exemplicar, que enquanto a Open AI, investiu US$ 6 bilhões no desenvolvimentos das versões do Chat GPT, a Chinesa de IA, Deep Seek abalou a Bolsa de Nova York, ao apresentar funcionalidades muito superiores, com investimento de apenas US$6 milhões, fazendo as ações da NVídia (GPUs) dos EUA derreterem.
Impactos Geopolíticos
– Declínio do dólar em transações tecnológicas.
– Europa pressionada a escolher entre EUA e Ásia.
Gilberto Namastech – Futurista
Os EUA Podem perder a Hegemonia Global de Poder, se:
Se continuarem com:
🔻 Protecionismo cego.
🔻 Restrições a imigrantes qualificados.
🔻 Cortes em pesquisa básica.
A China pode superar os EUA em IA até 2030 e em semicondutores até 2035 (McKinsey, 2023).
Soluções Possíveis:
✅ Aumentar gastos públicos em P&D para 3,5% do PIB.
✅ Facilitar vistos para cientistas estrangeiros.
✅ Parcerias estratégicas com Europa e Índia.
Fontes:
– NFAP (2022), “Decline in H-1B Visas for Scientists”; AAAS (2023), “US Federal R&D Budget Trends”; McKinsey (2023), “Semiconductor and AI Race”.
Gilberto Lima Junior é Palestrante Internacional, Humanista Digital, Analista de Geopolítica com ênfase na competitividade tecnológica, Membro do Board de diversas empresas de base tecnológica no Brasil e no Exterior. Redes Sociais: @gilbertonamastech