O logo do ChatGPT
Há sete anos, minha profissão é acompanhar inovações tecnológicas — especialmente aquelas que impactam a comunicação, o comportamento nas redes sociais e o modo como nos conectamos como sociedade. Mas a verdade é que há dois anos eu perdi essa capacidade.
Desde novembro de 2022, quando o ChatGPT foi lançado ao público, tenho repetido quase semanalmente uma frase:
“Não dá pra acompanhar a inovação exponencial.”
E não estou falando apenas de um sentimento subjetivo de aceleração. Estou falando de fatos concretos.
Se antes seguíamos a Lei de Moore — aquela ideia clássica de que a capacidade de processamento dos chips dobraria a cada 18 a 24 meses — hoje estamos em outra escala temporal: a das horas.
Sim, horas.
Nos últimos doze meses, vimos:
- • A OpenAI lançar oito atualizações significativas de modelos de linguagem;
- • A NVIDIA apresentar duas arquiteturas de hardware (como a Blackwell) que alimentam modelos com trilhões de parâmetros;
- • A Microsoft integrar modelos de IA diretamente no Windows, no Word, no Excel, e em praticamente todo o ecossistema de produtividade corporativa. Hoje, criar uma apresentação no PowerPoint com comandos de voz ou gerar relatórios completos com uma pergunta simples deixou de ser inovação — virou rotina.
Tudo isso está acontecendo em um ritmo que torna qualquer teoria linear ou exponencial obsoleta.
Agora chegamos à impressionante capacidade de geração de imagens com texto preciso do GPT-4.0.
Na quarta-feira passada (27/03) tomei contato pela primeira vez com a atualização. Eu tinha uma palestra para dar dois dias depois e instantaneamente comecei a recriar todos os slides da palestra usando o GPT.
Palestra em convenção da empresa Matrisoja, em Foz do Iguaçu, sexta-feira 28/03/25
Brincando com a ironia, transformei os slides da apresentação em um visual de rascunho, com grafite desenhado sobre papel mesmo. Apesar do sucesso na entrega do conceito que eu queria passar, fiquei em dúvida sobre meu sentimento em relação a mais essa inovação. A mais essa ferramenta. Quem ganha com a nossa facilidade em gerar mais e mais imagens? Quem perde?
Na última semana, já passamos por duas “trends” diferentes a partir desse recurso.
A primeira foi gerar imagens no estilo Studio Ghibli. Com a trend, voltou à tona uma antiga declaração de fundador do estúdio de animação, Hayao Miyazaki, de 84 anos. Em 2016, ele disse que “nunca desejaria incorporar essa tecnologia” ao seu trabalho. “Sinto fortemente que isso é um insulto à própria vida”, afirmou na ocasião.
Meme criado com semelhança ao Studio Ghibli
Mais recentemente, foi a possibilidade de você se ver como um action figure. Um brinquedinho fofo…
Pedro Cortella Palestrante
Não estamos apenas criando ilustrações digitais — estamos testemunhando uma revolução iconofágica mediada por máquinas que entendem estética, luz, composição e emoção.
Iconofagia é um termo cunhado pelo professor Norval Baitello Júnior para explicar a relação entre as pessoas e as imagens na sociedade contemporânea. Tive a sorte de estudar esse conceito durante a faculdade ainda no início dos anos 2000. Segundo o autor, a proliferação excessiva de imagens transformam as pessoas em seres superficiais.
Que visionário!
É necessário ser otimista, acreditar na capacidade humana de reinvenção. Mas vou te falar, não tá fácil de enxergar essa saída. É hora de retomar um dos lemas que mais repito nas minhas falas e textos:
Se é pixel, não é real.
Porque no meio de tanta geração automática, manipulação visual, avatares hiper-realistas e mundos sintéticos, o que é real precisa ser, cada vez mais, uma escolha ética e consciente — não um reflexo do que aparece na tela.
Se você trabalha com tecnologia, criação ou educação, o seu papel agora não é acompanhar tudo. É filtrar, entender o que importa e, acima de tudo, lembrar que somos humanos lidando com máquinas, não o contrário.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG