quarta-feira, 11 de março de 2026

Avanço do eucalipto na Costa Leste de MS gera debate sobre água, biodiversidade e desenvolvimento

A expansão das plantações de eucalipto e os impactos da cadeia da celulose na Costa Leste de Mato Grosso do Sul dominaram o debate promovido na tarde desta quinta-feira (11) pela Comissão de Desenvolvimento Agrário, Assuntos Indígenas e Quilombolas da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul. A reunião, que ganhou dimensão de audiência pública, reuniu parlamentares, pesquisadores, representantes do setor produtivo, vereadores e lideranças de comunidades para discutir os efeitos da silvicultura sobre o meio ambiente e a economia regional. As conclusões da reunião da comissão, que contou com participação de professores universitários, vereadores e representantes de comunidades, serão levadas na próxima segunda-feira pelo deputado Zeca do PT, presidente da comissão, ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em Brasília, com o objetivo de abrir diálogo com os órgãos federais e avaliar medidas relacionadas aos impactos ambientais da expansão do eucalipto na região.
Durante o encontro, o deputado estadual Zeca do PT afirmou que a monocultura do eucalipto precisa ser analisada com mais rigor diante de relatos de secamento de nascentes, baías e cursos d’água, além de preocupações relacionadas ao uso de defensivos nas áreas de plantio. Apesar das críticas, ele ressaltou que não é contrário ao desenvolvimento econômico e lembrou que, quando governou o Estado, participou da articulação que levou a empresa International Paper a se instalar em Três Lagoas, marco inicial da indústria de celulose na região.
Como alternativa para reduzir impactos ambientais, Zeca sugeriu ao representante do setor produtivo, Benedito Ramão, a criação de ilhas de árvores nativas e frutíferas dentro das áreas de eucalipto, que poderiam funcionar como refúgios ecológicos e oferecer alimento para a fauna silvestre.
Dados apresentados durante os debates indicam que a cadeia da celulose já impacta 53 municípios e cerca de 190 assentamentos rurais em Mato Grosso do Sul. No Estado, o plantio de eucalipto ocupa aproximadamente 2 milhões de hectares, consolidando a região leste como um dos principais polos de produção florestal do país.
O promotor de Justiça Luciano Loubet alertou que o avanço da silvicultura exige atenção do ponto de vista ambiental. Segundo ele, existem projetos que envolvem até 16 mil hectares de desmatamento para implantação de eucalipto. Loubet também explicou que, desde 2007, o plantio de florestas comerciais deixou de exigir licenciamento ambiental em determinadas situações.
O promotor destacou ainda que grandes blocos de monocultivo podem provocar fragmentação da vida silvestre, citando áreas que chegam a 15 quilômetros de largura por 20 quilômetros de extensão, o que dificulta a conexão entre habitats naturais. Como alternativa, ele defendeu a criação de corredores ecológicos para garantir a circulação da fauna e a manutenção da biodiversidade.

O pesquisador da área de climatologia Mario Henrique, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), afirmou que a região do Bolsão enfrenta uma situação preocupante do ponto de vista ambiental. Segundo ele, há sinais de mudanças no regime de chuvas, especialmente em Três Lagoas, onde o volume anual de precipitação passou a registrar menos de 1.100 milímetros em alguns períodos desde 2010. O professor também destacou que, do ponto de vista científico, plantações de eucalipto não podem ser classificadas como florestas, mas sim como monocultivos. Ele alertou ainda para a existência de fragmentos de vegetação nativa confinados entre grandes áreas de eucalipto, que acabam perdendo qualidade ecológica por falta de conexão com outros ecossistemas.
Outra preocupação levantada durante o debate foi o impacto da mudança no uso do solo sobre atividades tradicionais da região. Segundo a professora de Geografia, Marine Dubos, do campus de Três Lagoas da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), a empresa Suzano investiu R$ 1 milhão na implantação de um laticínio como medida compensatória associada à instalação da indústria de celulose. No entanto, de acordo com a docente, a unidade estaria funcionando com apenas cerca de 30% da capacidade, em razão da queda na produção leiteira local. A docente se mostrou convencida  de que industrias do segmento de celulose como a Suzano, tem feito “muito mais marketing”, que propriamente fazendo investimentos em medidas compensatórias que de fato contribuam para melhorar a qualdiade de vida das populações diretamente impactadas pelos empreeendimentos.  

Representando o setor produtivo, Benedito Mário Lázaro afirmou que as empresas seguem critérios técnicos e ambientais e que grande parte das áreas utilizadas para o plantio já estava degradada antes da implantação da atividade. Segundo ele, a silvicultura trouxe investimentos, empregos e melhorias na infraestrutura regional. Lázaro afirmou ainda que as empresas realizam manejo de solo e de recursos hídricos, mantêm estrutura de prevenção e combate a incêndios florestais e realizam a pulverização de defensivos dentro das normas e da legislação vigente. “Queremos paz para trabalhar. A silvicultura transformou a região”, declarou.
O ex-prefeito de Ribas do Rio Pardo, João Alfredo, também manifestou preocupação com a expansão da atividade no município. Segundo ele, cerca de 40% do território local já está ocupado por eucalipto, e a área plantada saltou de 160 mil para aproximadamente 400 mil hectares nos últimos anos. Ele citou ainda operações imobiliárias ligadas ao avanço do setor e afirmou que uma empresa vinculada à Suzano teria adquirido terras por cerca de R$ 6 mil por hectare, em uma área aproximada de 1.700 hectares.
João Alfredo também demonstrou preocupação com a situação ambiental do Rio Pardo, citando relatos de morte de peixes e lembrando que a captação de água para uso industrial é realizada no próprio rio. Ele ainda criticou a aplicação da compensação ambiental de R$ 75 milhões associada à instalação da indústria no município e questionou a eficácia das certificações ambientais adotadas pelo setor.


Fonte: Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul – ALEMS