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Episodio 4- Afanes e revelações
Como prometido fui até a banca na quinta feira.
‘Bom dia Afanes, sou a Jeru…
‘Jerusa, lembro, lembro bem, recuperou os diários?’
‘Infelizmente não, mas tenhos uma pista…uma pista de onde o ele pode tê-los escondido’
‘Uma boa notícia. Achei a Revista censurada que você queria. Você me desculpe, dei uma espiada, não tem nada de útil para você ali.’
‘Sério?’
Afanes passa a revista para Jerusa que a folheia com enorme displicencia”
‘É mesmo, estou vendo, só falou o óbvio’
‘Mas talvez, Afanes emenda, eu tenha uma pista’
Afanes pode mesmo ser um aliado? Será confiável? Porque se mostrava sempre tão solicito?
‘Olha Senhora…’
‘Pode ser Jerusa’
‘Certo, Jerusa, quando vi a foto dele preciso confessar: conheço seu ex. Zoilo, né? Ele passava aqui todo dia antes de ir malhar.
Eu sabia que ai tinha coisa.
‘Sei. Ele te contava alguma coisa sobre nós? Arriscou Jerusa
‘Ele me falou, mas eu sabia que era você.
‘E o que ele disse?”
“Falou dos últimos três diários e sobre a sua pergrinação atrás de uma carta.’
‘É um desclassificado, que raiva”
‘Mas fique tranquila, eu nunca comentei nada com ninguém. A edição que ele também queria nunca vi, quer dizer vi uma vez e nunca mais’
Estou muito tranquila filósofo de beira de praia. Pensei baixo.
‘Mas ele te encomendou o livro?’
‘Sim.
‘É você achou?’
‘Não senhora, aqui não vendo raridades, mas como falei eu sei onde tem’
Jerusa dá algums passos para trás, o queixo caido, perplexa.
‘Você está brincando?
‘Não, mas já aviso, vão te pedir os olhos da cara’
‘Não importa’ Pode me dar o contato?
Afanes exita.
‘Por favor, Aristófanes.’
Afanes para um minuto, pensativo, tentando especular porque Jerusa teria usado seu nome verdadeiro. Estava censurando, implicando, tentando jogar o anzol para pescar mais informações?
‘Olha, aqui esta o cartão, ele não tem celular, e já aviso, o sujeito é meio excentrico. E um pouco assustador’
‘Assustador por que?’
‘Lúgubre, se move como um espirito’
Quando eu já havia decidido voltar na quinta na banca do Afanes por um minuto, sabe aquela coisa da moderna psicologia que se chama “pensamento rápido”? Me passou pela cabeca que ele poderia não ser confiável.
Pensei, bobagem! Paranóia.
Mas agora já haviam vários indicios: mostrou que sabia demais sobre a minha vida, havia definido perfeitamente a atitude do Zoilo. E como ele sabia que eu me interessava pelo Stephan Zweig? Não, não podia ser mesmo coincidência. Aliás, acaso ou coincidencia. As chances não são aleatórias, eu pelo menos nunca acreditei nisso.
Como é que ele antecipou que os ultimos três diários eram os mais importantes?
Sai da banca cambaleante, zonza, mas bem mais disposta do que nunca em ir até o fim.
Lembrei de cabeça do diário que eu chamo de número 18, um dos últimos, onde estava toda minha especulação, eu chamei de teoria. Ainda bem, foi mesmo pelos céus, que eu fiz alguma criptpgrafias no texto. Espero que eu possa decifrar os códigos que eu mesma criei ali.
“21 de março, último dia do verão. Querido Enigma V. hoje eu escrevo finalmente sobre o que descobri sobre o bruxo de Cosme Velho. Ele sabia do que falava. Quando ele descreve o tolo ele mostra como não os conhecemos na intimidade. O tolo, isto é, o homem tolo é uma figura patética, e a mais ardilosa que existe. Ele perto de todas as tramóias que vi de dentro e de perto no mundo da politica está em uma outra categoria, ele não engana as massas, mas dilacera os próximos. Ele não é exuberante, mas insulta a inteligência dos medianos, E furtivamente se locupleta dos mais medíocres que ele, como se isso fosse possível. Eu sabia que M. não iria deixar uma impressão distorcida sobre as mulheres, muito menos sobre a nobreza do desejo feminino. Nunca os homens entenderão. Isso não é uma disputa hierarquica. E não, não sou uma feminista ideológica, mas eu tinha que encontrar uma explicação. Um gênio como ele não desperdiçaria seu talento. Essa é regra número um da genialidade. Tudo é aproveitado. Uma ideia, um nasgo de visão, um brilho fosco, um olhar sem foco, as árvores torcidas de um vaso. E eu sei que ela, a explicação, existe. Agora eu sei, está provado, há uma carta e ela é curta, mas é daquele tipo que sintetiza o aboluto. São palavras celulares. E juro, Enigma V., vou descobrir onde ela foi parar. Se está no Rio, na Guatemala ou em Nova York não me interessa, vou buscar até o fim do mundo. Por hoje é só, adeus querido Enigma V., amanhã nos vemos. Ps- Viu que eu te trato como uma pessoa? É porque confio no teu sigilo. E prezo a intimidade. Como prezo.”
Continua