domingo, 11 de janeiro de 2026

Manoel Carlos: entre Helenas e vilãs, relembre obras marcantes

Manoel Carlos, 92 construiu uma das obras mais reconhecíveis da teledramaturgia brasileira ao transformar o cotidiano em matéria-prima dramática. Seu nome ficou eternamente associado às Helenas, que eram mulheres sensíveis, contraditórias e profundamente humanas, mas limitar sua produção a essas protagonistas seria injusto. Ao longo de décadas, Maneco também criou vilãs complexas, personagens ambíguas e conflitos morais que ajudaram a elevar o melodrama televisivo a um patamar mais realista e emocionalmente sofisticado.

As Helenas, interpretadas por algumas das maiores atrizes do país, nunca foram heroínas idealizadas. Eram mães, amantes, filhas e mulheres atravessadas por dilemas éticos profundos, frequentemente obrigadas a escolher entre amor, culpa e sacrifício. Essa abordagem fez com que o público se reconhecesse nelas, criando uma conexão rara entre ficção e vida real. Ao mesmo tempo, Manoel Carlos soube cercar essas protagonistas de antagonistas fortes, muitas vezes mulheres igualmente complexas, que fugiam do maniqueísmo clássico e revelavam motivações psicológicas densas.

Novelas, Personagens e Marcos

Em novelas como História de Amor (1995), uma das obras mais afetivas do autor, a trama acompanha Helena (Regina Duarte) e seus dilemas como mãe e mulher, durante a criação da filha Joyce (Carla Marins) que se envolve com o médico Carlos Alberto Moretti (José Mayer).  O romance enfrenta obstáculos provocados por Paula (Carolina Ferraz), esposa de Carlos, e por Sheila (Lilia Cabral), sua ex-companheira e sócia. Paralelamente, Joyce lida com uma gravidez não planejada, tema que gerou ampla repercussão na época. A reexibição de 2025, celebrando 30 anos da estreia, reafirmou o status de clássico do folhetim e superou a audiência de reprises anteriores.

Já a novela Por Amor (1997), talvez a novela mais icônica de sua carreira. A troca de bebês feita por uma mãe (Helena também interpretada por  Regina Duarte) para salvar a filha Eduarda ( Gabriela Duarte), provocou debates nacionais e transformou a obra em referência absoluta da teledramaturgia brasileira. O elenco extenso também é um dos mais  memorável da Globo: Antônio Fagundes como Atílio Novelli, Susana Vieira como Branca, Fábio Assunção, Vivianne Pasmanter, Murilo Benício e Carolina Ferraz, entre outros. 

Marcaram Época

Com a famosa cena em que Camila (Carolina Dieckmann) raspa o cabelo, Laços de Família (2000) abordou câncer, relações familiares e sacrifícios maternos, tornando-se um marco cultural da época. A trama gira em torno de Helena (Vera Fischer), que se apaixona pelo jovem médico Edu (Reynaldo Gianecchini). O relacionamento é abalado quando Camila (Carolina Dieckmann), filha de Helena, também se apaixona por ele. A história ganha contornos dramáticos quando Camila descobre um câncer e Helena toma uma decisão extrema para salvar a filha, gerando uma das cenas mais icônicas da televisão brasileira. A novela marcou a estreia de Juliana Paes na televisão e consolidou Gianecchini como galã nacional

Uma das produções mais lembradas do autor, Mulheres Apaixonada (2003) ficou marcada por discutir violência doméstica, preconceito, relações abusivas e juventude. Na história, Helena (Christiane Torloni), diretora de uma escola no Rio de Janeiro, e casada há 15 anos com o saxofonista Téo (Tony Ramos), reencontra o ex-namorado César (José Mayer), médico renomado, fazendo-a reviver sentimentos do passado e passar  a questionar o próprio casamento. O enredo se desdobra em múltiplas histórias paralelas e destacou-se por tratar temas como alcoolismo, violência doméstica, homossexualidade e adoção.

Já em Páginas da Vida (2006), Manoel tratou de abandono, adoção, inclusão e relações intergeracionais, trazendo personagens idosos e crianças para o centro da narrativa, se tornando uma das novelas mais premiadas do autor. A trama se inicia com Nanda (Fernanda Vasconcellos) engravidando de gêmeos e sendo abandonada pelo namorado Léo (Thiago Rodrigues). De volta ao Brasil, ela morre após o parto, deixando dois bebês: Francisco e Clara, esta com síndrome de Down. A avó Marta (Lília Cabral) rejeita a neta, que é adotada pela médica Helena (Regina Duarte). A narrativa acompanha as consequências morais e afetivas dessa separação ao longo dos anos, explorando dilemas familiares e sociais. A novela também destacou-se por encerrar cada capítulo com depoimentos reais de pessoas anônimas, relacionando histórias de vida ao tema do episódio.

Em Viver a Vida (2009) a protagonista Helena (Taís Araújo), uma bem-sucedida modelo, decide abandonar as passarelas para se casar com o empresário Marcos (José Mayer). O relacionamento desperta a ira da filha dele, Luciana (Alinne Moraes), também modelo. Durante uma viagem de trabalho, Luciana sofre um acidente que a deixa paraplégica, passando a enfrentar desafios de reabilitação e transformando a dinâmica entre as famílias. O vínculo com Miguel (Mateus Solano), médico e irmão gêmeo de seu namorado, dá novo rumo à sua vida e à narrativa.

Última novela de Manoel Carlos, Em Família (2014) encerrou oficialmente sua trajetória na teledramaturgia. A obra retomou conflitos amorosos, laços familiares e a figura da Helena, fechando um ciclo de mais de cinco décadas de carreira. A história gira em torno de Helena (Julia Lemmertz), Virgílio (Humberto Martins) e Laerte (Gabriel Braga Nunes), cujas vidas se entrelaçam desde a juventude em Goiás até a maturidade no Rio de Janeiro. Amores interrompidos, ressentimentos e reconciliações são revisitados ao longo de três fases, mostrando como o tempo redefine vínculos familiares e afetivos. O elenco conta ainda com Bruna Marquezine, Giovanna Antonelli e Reynaldo Gianecchini, entre outros.

Um legado de gerações

As novelas de Manoel Carlos não ficaram apenas na memória afetiva do público: elas ajudaram a moldar debates sociais, influenciaram gerações de autores e consolidaram um estilo próprio:  urbano, emocional e profundamente humano. Revisitá-las é revisitar a história recente da televisão brasileira.

O legado de Manoel Carlos está justamente nessa capacidade de humanizar todos os lados da história. Entre Helenas que entraram para a memória afetiva do país e personagens moralmente questionáveis que provocaram debates nacionais, o autor deixou uma obra que continua atual porque fala de sentimentos universais, conflitos cotidianos e das complexidades das relações humanas.

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