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Crimes Reais: por que True Crime atrai tanto as mulheres?

O gênero True Crime, que conta histórias de crimes reais, sempre foi bastante explorado na cultura pop em diversos formatos, desde a literatura, em livros como A Sangue Frio, de 1980, ao cinema, com filmes como O Homem Que Odiava as Mulheres, de 1968, e O Bandido da Luz Vermelha, filme brasileiro do mesmo ano.

Nos últimos anos, no entanto, a popularização do True Crime cresceu consideravelmente com as mídias digitais. Atualmente existem diversos conteúdos sobre o tema em diferentes plataformas, como o YouTube, TikTok e Spotify, além das cada vez mais frequentes produções nas plataformas de streaming.

Estudos mostram que as mulheres formam a grande maioria no público que consome e produz esse tipo de conteúdo na internet. Um  estudo de 2010, realizado pelos pesquisadores Amanda M. Vicary e R. Chris Fraley,
da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, aponta que as mulheres são maioria no consumo de livros sobre o tema, já os homens tendem a se atrair mais por outros gêneros, como histórias de guerra ou disputas entre gangues, por exemplo.

Em 2019, a  Civic Science
publicou um estudo que aponta que as mulheres representam a maior audiência do gênero, sendo mais que o dobro em relação ao público masculino.

Mas por que o True Crime atrai tanto as mulheres?

A empresária Tatiana Fanti diz que sempre gostou de entender sobre a mente humana e ficar pensando “o que levaria uma pessoa a cometer um crime, entender sobre patologias e sobre a psicologia”.

“E esses True Crime mergulham nesse tipo de análise. Em um primeiro momento, eu ouvi um podcast e pensei: ‘meu Deus, por que ouvir isso?’. Mas percebi que eu ouço para tentar entender a mente do ser humano, que é bem maluca…”, diz Tatiana.

Segundo a psicóloga Karen Scavacini, as mulheres tentem a ser mais empáticas com as vítimas e tentam entender a situação pelas quais elas passaram e suas emoções, especialmente quando as vítimas são mulheres, por passar uma sensação de que “isso pode acontecer comigo”.

“Há uma identificação, como uma cautela, a partir do que se vê no True Crime. [Quando as vítimas são mulheres] isso aumenta a identificação, gera uma conexão emocional mais intensa com as histórias, o que pode fazer com que as mulheres consumam mais e engajem com esse tipo de conteúdo”, diz a psicóloga. 

Para Tatiana, que se define como “Crimiseira” – inspirada em seu podcast favorito, o Café com Crime, o que a atrai nesse tipo de conteúdo é a possibilidade de compreender o comportamento humano.

“[Entender] como uma mente doente funciona. Como muitos dos criminosos se sentem acima do bem e do mal. Acho que mais do que o crime em si, me interessam as análises psicológicas”, aponta. 

A contadora Lilian Roncoleta diz ouvir podcasts sobre assiduamente há cerca de 5 anos. “Comecei a ouvir pelo YouTube, e a plataforma acabava me indicando outros, foi um caminho sem volta”, brinca. 

“Eu acho que é natural da humanidade querer entender o motivo de alguém fazer, o que a levou a cometer um crime… quanto mais inacreditável, mais curiosidade isso causa”, diz Lilian.

Para ela, as mulheres se sentem mais atraídas por serem mais sensíveis e quererem ouvir uma narrativa, enquanto homens preferem o visual, o horror. “Não sei se faz sentido [risos]”, reflete a contadora.


Pode trazer benefícios psicológicos?

Ao se identificarem com as vítimas, as mulheres também podem “aprender a identificar”, como um tipo de alerta natural para evitar agressores – as famosas Red Flags.

Karen Scavacini diz que as mulheres podem, mesmo inconscientemente, aprender a partir dessas histórias de crimes reais a se precaver para evitar passar pela mesma situação.

“Ao consumirem esses conteúdos em casa, elas podem explorar essas histórias em um ambiente mais seguro e podem ajudar a mulheres que têm muito medo. Pode ser psicologicamente benéfico ao ter uma aproximação com o tema de uma maneira segura”, diz a psicóloga.

Além disso, Karen destaca o fator sociocultural, envolvendo as questões de justiça, muitas vezes relacionadas a gênero, e isso pode atrair muitas mulheres como uma forma de se engajar com essas questões de justiça social e direitos das mulheres.

“Muitas vezes, esse tipo de conteúdo vai gerar uma comunidade, pessoas que compartilham interesses e podem se unir para falar, para ter opiniões. Para as mulheres, esse tipo de sentimento de comunidade, de pertencimento, é muito importante”, reforça a psicóloga.

“Outro fator que pode fazer com que elas se sintam atraídas, e é muito complexo de uma maneira psicológica, são os mistérios de um caso de crime que podem fornecer um estímulo mental e emocional para a mulher pensar ‘quem foi?’, ‘como que foi?, e ela tentar solucionar, desvendar esse crime”, continua Karen, apontando que essa identificação pode ajudar a passar por medos, assim como trazer uma satisfação em, de alguma forma, sentir que a justiça foi feita.

True Crime pode servir como um ‘sistema de autodefesa’?

Conhecer as histórias de crimes reais acende um alerta natural nas mulheres, que passam a tomar mais cuidado antes de um encontro, passam a ter um melhor planejamento de segurança e a tomarem decisões de maneira mais informada.

“Elas passam a tomar maiores precauções, como avisar com que irão se encontrar, para onde e quando irão, também pensam melhor em quem vão avisar. Isso passa uma maior sensação de segurança e até empoderamento”, diz a psicóloga. 

“A partir do momento que você conhece histórias reais e entende situações reais, você também pensa em como você pode automaticamente lidar e enfrentar, se passar por esse perigo, ou como evitar esse perigo. Isso aumenta a segurança pessoal da mulher, e pode ser muito benéfico”, aponta Karen, alertando que é importante ter um equilíbrio, já que o consumo excessivo também pode causar impactos na saúde mental de uma pessoa.

“Acho que, de uma forma geral, é como se fosse um manual de como se proteger… especialmente em crimes com mulheres”, pondera Lilian, ressaltando que costuma se sentir identificada com as histórias.

Kelly concorda. Para ela, esses conteúdos podem muito úteis para o público feminino. “Já que estamos sempre correndo o risco de sermos mortas por algum homem, nos deixa mais atentas”, acredita.

Já Tatiana tem um pensamento oposto. “Zero me sinto assim”, garante ela. “Eu ouço e, claro, me comovo com as histórias porque foram reais. Mas ouço um podcast de True Crime como se estivesse vendo um filme. Nunca ouvi com o objetivo de ‘aprender a ler sinais ou me proteger’”, garante.

Os prazeres do True Crime

O consumo de determinados conteúdos pode trazer diferentes sensações, desde prazeres a repulsa. Consumir True Crime pode trazer algum efeito ao emocional, como a prática de um exercício físico, ou comer um prato saboroso? O que explica essa atração por histórias que, na realidade, deveriam ser assustadoras?

“Se a pessoa está interessada em assistir uma série, ouvir um podcast ou está lendo um livro de crime, isso a motiva, faz com que ela exercite seu pensamento, sua racionalidade. Por que não?”, questiona a psicóloga. “Pode trazer um efeito emocional positivo, a depender de como a pessoa vê essa história.”

“A pessoa pode ficar mais atraída por esses temas, e ela pode ler isso sem ter risco, o que pode satisfazer algumas curiosidades que as pessoas têm sobre esses crimes, desse lado sombrio, do desconhecido. Mesmo estando distante, ela pode também sentir adrenalina”, continua Karen.

A psicóloga explica que essa descarga de adrenalina traz uma sensação de alívio quando o crime é resolvido, quando o criminoso é capturado. “Isso traz uma sensação de justiça, e isso pode ser satisfatório”.

Karen afirma que, ao observar histórias de outras pessoas, é possível refletir sobre seus próprios valores morais, seus medos, seus limites, aumentando o autoconhecimento.

Consideradas as devidas proporções, a psicologa relembra o famoso jogo Detetive, no qual um grupo, geralmente crianças, se reúne para descobrir quem é o suspeito por um crime.

“[Consumir True Crime] é como um jogo de detetive, muito mais real e assustador. Em muitos momentos você vai tentando seguir as pistas, pensar como seria se fosse você, como você se protegeria dessa situação”, finaliza.

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