Você provavelmente já ouviu alguém dizer: “Viver é diferente de estar vivo.”

A frase ficou conhecida em diferentes contextos, quase sempre associada à alegria, diversão ou intensidade. Mas, se pararmos por alguns instantes para refletir, perceberemos que ela revela algo muito mais profundo.

Todos os dias repetimos expressões como: “São coisas da vida.” Dizemos isso quando algo não acontece como planejamos, quando enfrentamos uma perda ou quando tentamos consolar alguém. A palavra “vida” faz parte do nosso vocabulário com tanta naturalidade que, muitas vezes, esquecemos de pensar no que ela realmente significa.

Vida é movimento. É relação. É transformação.

Ela não acontece apenas nos grandes acontecimentos, mas em cada encontro, em cada escolha, em cada experiência que nos modifica. Assim como a natureza, nossa existência também é dinâmica: há dias de crescimento e dias de recolhimento; momentos de conquista e momentos de perda; fases de entusiasmo e outras de silêncio. Nenhuma trajetória é linear.

No entanto, em algum momento, muitos de nós passamos a viver no piloto automático.

A rotina se enche de boletos, reuniões, prazos, metas, tarefas domésticas, compromissos com a família, responsabilidades profissionais e uma lista interminável de obrigações. Planejamos o amanhã antes mesmo de viver o hoje.

E, sem perceber, deixamos de experimentar a própria vida.

Existe um perigo silencioso nesse processo: nossa existência deixa de ser guiada pelo que faz sentido para nós e passa a ser conduzida pelas expectativas que imaginamos que os outros têm sobre nós.

Corremos para corresponder.

Buscamos aprovação.

Tentamos dar conta de tudo.

Mas há uma verdade difícil de aceitar: dificilmente conseguiremos atender às expectativas de todas as pessoas. E, quando fazemos disso nosso principal objetivo, acabamos nos afastando de quem realmente somos.

Então os anos passam.

Um dia percebemos que fizemos o mesmo caminho para o trabalho durante décadas, frequentamos sempre os mesmos lugares, conversamos sobre os mesmos assuntos, experimentamos as mesmas comidas e adiamos sonhos esperando o “momento certo”, que muitas vezes nunca chega.

Não há problema algum em gostar da rotina. Ela traz segurança, estabilidade e organiza a vida.

O problema é quando a rotina se transforma em prisão e deixa de existir espaço para a curiosidade, para a descoberta e para a novidade.

Experimentar a vida não significa abandonar tudo e recomeçar do zero.

Às vezes, significa apenas escolher um caminho diferente para casa.

Sentar-se para assistir ao pôr do sol.

Conhecer um lugar novo da própria cidade.

Ler um livro que normalmente você não escolheria.

Conversar com alguém que pensa diferente.

Permitir-se aprender uma habilidade que sempre despertou curiosidade.

São pequenos movimentos que interrompem o piloto automático e nos lembram que viver também é experimentar.

Talvez seja justamente isso que diferencia quem apenas está vivo de quem realmente vive.

Porque estar vivo é uma condição biológica. Viver é uma escolha que fazemos todos os dias.

E, quando a nossa caminhada chegar ao fim, dificilmente lembraremos apenas das metas alcançadas, dos boletos pagos ou dos compromissos cumpridos. O que permanecerá serão as relações que construímos, as experiências que colecionamos e o sentido que demos à nossa existência.

Por isso, deixo um convite. Antes de mudar o mundo, experimente transformar um pequeno pedaço do seu. Talvez seja aí que a vida, de fato, comece.

E agora eu lhe pergunto:

Você está vivendo ou apenas está vivo?

 

 Ana Carolina Perroni Lima

Psicóloga (CRP14/3583-4)| Executiva de RH | Especialista em Saúde Mental e Desenvolvimento Humano e Organizacional