Já pensou em estudar no exterior? Aprender uma nova língua, mergulhar em outra cultura e voltar ao Brasil com um novo olhar sobre o próprio trabalho. Sair do país de origem para se formar exige coragem para lidar com a distância e a adaptação, mas entrega conhecimento, networking e experiências que desafiam e ampliam horizontes.

No agronegócio, o movimento ganha peso por um motivo concreto: o setor sul-mato-grossense está diretamente ligado ao mundo. De acordo com relatório do departamento técnico do Sistema Famasul, as exportações do agro de Mato Grosso do Sul somaram US$ 5,68 bilhões no primeiro semestre de 2026, alta de 12,4% em relação ao mesmo período de 2025, e responderam por 96,1% de tudo o que o Estado vendeu ao exterior. Só a carne bovina movimentou US$ 1,17 bilhão, crescimento de 47,9%, com a China, principal destino da proteína, ampliando em 109% o valor das compras. Entender quem compra e como o outro lado produz deixou de ser diferencial e passou a ser estratégia.

Nesse cenário, a atualização constante e a capacidade de dialogar com mercados globais pesam cada vez mais na formação dos profissionais. É um movimento que conversa com o trabalho da Famasul Jovem, comissão que abre espaço para a juventude atuar na representação rural, oxigena o setor e ajuda o sistema a acompanhar as mudanças sociais.
O assunto esteve no centro do Encontro Jovens da Agropecuária, realizado na quinta-feira (8), na Casa Rural, com o tema “Agro Global: experiências e oportunidades de estudo e trabalho no agronegócio internacional”. Em uma imersão por Ásia, Estados Unidos, Europa e Oceania, o encontro apresentou ao público possibilidades de pós-graduação, intercâmbio, programas de liderança e experiências profissionais fora do país. Quatro profissionais com trajetória em cada uma dessas regiões contaram como foi o caminho, do planejamento à adaptação, e o que a vivência devolveu à carreira e ao agro brasileiro.

Na abertura, a coordenadora de Programas e Projetos Especiais do Senar/MS, Pauline Cury, convidou os jovens a ampliar horizontes e a perceber que o agro oferece muitas oportunidades, “se permitirem sonhar grande”. A presidente da Comissão Famasul Jovem, Julia Mendes, lembrou que o assunto é “sempre muito presente” nas discussões do grupo e que ele “engrandece e gera muito valor” tanto para a carreira quanto para a vida pessoal.

O mercado pede quem conhece o mundo
Direto de Pequim, onde é coordenador de negócios da GDM, empresa líder mundial em melhoramento genético de soja, João Ricardo Silva mostrou por que a China ocupa lugar central nessa conversa. O país tem a maior área agricultável do mundo, mas um mercado pulverizado e pouco tecnificado: o pequeno produtor tem dificuldade de investir em maquinário e assistência técnica. Sem espaço para crescer em área, a China precisa ganhar produtividade e segue dependente da soja brasileira.

A relação se reflete no campo brasileiro. Cerca de 30 milhões de hectares de soja no Brasil só são plantados porque a China é a principal compradora, e 79% das exportações brasileiras do grão seguem para lá, segundo os dados apresentados. O mesmo vale para cadeias como carne bovina, celulose e proteínas de frango e suína, presentes no agro de Mato Grosso do Sul e que, na avaliação de João Ricardo, merecem atenção de quem busca oportunidades de trabalho ligadas ao país.

De acordo com João, o caminho inverso também existe: multinacionais do setor sempre mantêm alguma relação com o mercado chinês, o que valoriza o profissional que fala o idioma e conhece a cultura local. O inglês, ressaltou, abre portas, mas o mandarim abre outras. Para quem está começando, a recomendação foi ir preferencialmente no início da carreira, quando o custo de oportunidade é menor, e entender que o ganho não é geográfico: é aprender a trabalhar com outras culturas, mercados e formas de negociação.

Liderança se constrói em rede
Os Estados Unidos entram na conversa pela porta da liderança. O produtor rural Alexandre Junqueira Netto, presidente do Sindicato Rural de Eldorado e vice-presidente da Comissão Nacional de Novas Lideranças do Agro da CNA, participou de um programa internacional de liderança do governo norte-americano e é bolsista scholar da Nuffield Brasil. Ele listou quatro obstáculos comuns a quem quer se internacionalizar: fluência, tempo, dinheiro e persistência. No caso do idioma, descreveu uma dor compartilhada que só se resolve com prática.

Para Alexandre, o valor da experiência foi além do destino. Único sul-americano do grupo, ele mantém contato até hoje com colegas de diferentes países, o que reforça o networking como um dos principais ganhos. O conselho foi testar todos os processos seletivos possíveis, porque quanto mais prática, melhor, e saber quem você é e onde quer estar no futuro.

Valor, não volume
Na Europa, o exemplo é outro. Mestrando em Economia, Política e Regulamentação Agroalimentar na Universidade Técnica de Munique, na Alemanha, Rafael Riedel expressou a necessidade em enxergar um agro diferente.
O que encontrou foi um continente que produz menos do que consome. Cerca de 80% da soja consumida na União Europeia é importada, mas os europeus compensam a dependência agregando valor: mais de 80% das exportações agroalimentares do bloco são de produtos processados, contra 46,6% no Brasil. Na comparação com a Alemanha, o Brasil produz 2,8 vezes mais usando 13 vezes mais terra, enquanto cada hectare alemão gera quase cinco vezes mais valor, R$ 29.900 contra R$ 6.330. “Já sabemos produzir. A próxima revolução agrícola do Brasil é a do valor”, afirmou.

Entre os acertos europeus, Rafael apontou a forma como os europeus valorizam o produto e quem o produz. Selos de origem controlada, rastreabilidade e rotulagem permitem que o consumidor saiba de onde o alimento veio e como foi produzido, o que transforma a origem em parte do valor do que é vendido. A lógica se completa com o hábito de importar a matéria-prima e processá-la dentro de casa, deixando na própria cadeia a renda que vem da transformação.

Para ele, a vivência fora do país vai além da sala de aula. Estudar no exterior amplia o repertório e a caixa de ferramentas do profissional com conhecimentos que não estão na internet, e o aprendizado se estendeu a espaços como a World Farmers’ Organisation, a Nuffield e o FAO World Food Forum. São ambientes em que produtores, pesquisadores e jovens lideranças de vários países discutem os rumos da agricultura e da alimentação, e estar presente neles significa ampliar a rede de contatos, entender como as decisões são construídas e levar a perspectiva brasileira para essa conversa. Em um mundo de inteligência artificial, avaliou, faltam profissionais que entendam os assuntos a fundo, e é esse aprofundamento que a experiência internacional ajuda a construir.

Gestão e portas abertas
Da Oceania veio a perspectiva de quem fez a trajetória completa. Pesquisadora da Embrapa há 25 anos, a zootecnista Mariana de Aragão Pereira é a primeira mulher a assumir a chefia-geral da Embrapa Gado de Corte. Mestre em Economia Aplicada pela Universidade Federal de Viçosa, ela fez o PhD em Gestão Agrícola na Universidade de Lincoln, na Nova Zelândia, país que conheceu de perto como estudante. Segundo ela, o território neozelandês, forte tanto no agro quanto no turismo, recebe bem os estrangeiros: até 70% dos estudantes das universidades vêm de outros países. Lá, a produtividade divide espaço com a gestão da propriedade, e os pesquisadores precisam estar sempre atualizados.

Mariana lembrou que muitos países mantêm acordos que permitem ao estudante permanecer e residir depois da graduação, o que faz da pesquisa sobre as regras de cada destino parte do planejamento. Para quem ainda não pode sair, há por onde começar: os congressos internacionais sediados no Brasil aproximam estudantes de pesquisadores e orientadores de outros países e funcionam como espaço para trocar informações, apresentar interesses e se colocar à disposição para novas parcerias. Ela acrescentou que a trajetória exige atitude para procurar orientadores, perguntar e pedir oportunidades.

O que trazer na bagagem
Para os palestrantes, o ganho de viver fora do país não termina na experiência em si, mas no que se traz de volta. Rafael defendeu que tudo o que os países desenvolvidos fazem e o Brasil ainda não faz é uma oportunidade de adaptar, tropicalizar e trazer para dentro do país. Mariana encerrou sua fala com a pergunta que sintetiza o encontro: o que você gostaria de trazer na bagagem depois da experiência lá fora?

Em sua 35ª edição, o Encontro Jovens da Agropecuária reafirma o interesse do público jovem em conhecer melhor o setor produtivo e se inteirar das ações em prol do desenvolvimento regional e nacional. Ao apresentar caminhos que vão da sala de aula ao mercado internacional, o evento reforça que a formação desta geração passa por conhecer o mundo sem perder o vínculo com o campo.

Assessoria de Imprensa do Sistema Famasul – Larissa Adami

Fonte: Senar MS