Uma mochila rasgada e algumas calças jeans que já não serviam para doação deram início a uma nova história na vida de Rose Ramos, em Maceió (AL). Era fim de 2022 quando, ainda aprendendo a costurar em uma máquina doméstica usada, ela decidiu aproveitar o tecido para fazer uma mochila para um dos quatro filhos. O resultado agradou ao filho e aos colegas e fez Rose enxergar uma possibilidade onde antes havia apenas descarte.
Bióloga, professora universitária e pesquisadora científica por mais de 20 anos, ela havia deixado a carreira acadêmica para se dedicar mais aos cuidados de um dos filhos, hoje com 22 anos, autista com nível 3 de suporte e deficiência intelectual severa. Empreender nunca esteve nos planos, mas o artesanato, presente desde a infância, começava a apontar um novo caminho.
Foi no Sebrae que essa ideia começou a se transformar efetivamente em negócio. Pouco depois de produzir as primeiras peças, Rose entrou em um grupo de mães empreendedoras e conheceu uma representante da instituição. Para participar de sua primeira feira, fez uma capacitação em atendimento e vendas. Depois vieram cursos, oficinas, consultorias e, no início de 2023, o programa de aceleração Efeito Furacão, onde descobriu que sua proposta reunia características de um negócio de impacto.
O apoio continuou ao longo da estruturação do empreendimento, com conhecimento, orientação e conexões. “Eu cheguei ao Sebrae só com uma ideia. Foi lá que descobri que aquilo era um negócio. Fiz capacitações, consultorias, oficinas e as pessoas foram me indicando caminhos e abrindo portas. Se não fosse o Sebrae, com certeza eu não estaria empreendendo”, afirma.

Assim ganhou forma a Ressigna, que une sustentabilidade, artesanato e impacto social. Em cerca de três anos, Rose calcula ter recolhido aproximadamente 470 a 480 quilos de jeans e outros descartes têxteis, entre materiais já transformados e os mantidos em estoque. Mais recentemente, começou também a trabalhar com lonas e banners e recebeu cerca de 376 quilos desse material provenientes de um evento do Sebrae.
Tudo passa por higienização antes de ganhar novos cortes, pinturas, bordados e aplicações. O resultado são bolsas e acessórios únicos, feitos a partir de materiais que poderiam ser descartados e transformados pelas habilidades artesanais que Rose desenvolve desde criança.
Apoio a famílias em situação de vulnerabilidade
Mas a Ressigna nasceu para ressignificar mais do que tecidos. Criada na periferia do Rio de Janeiro e ex-aluna de escola pública, Rose atribui à educação a possibilidade de ter construído outros caminhos e, por isso, destina parte dos lucros do negócio a ações com famílias em situação de vulnerabilidade. Entre as histórias que acompanha está a de uma avó que cuidava de três netos com deficiência intelectual e produzia o tradicional bordado filé, mas recebia pouco pelas peças.
Depois de uma oficina de pintura em tecido, ela passou a produzir panos de prato decorados para complementar a renda. Em outra frente, atividades de leitura aproximaram crianças e adolescentes dos livros, e uma das jovens atendidas conseguiu ingressar na universidade e hoje está se formando em Pedagogia. “É um trabalho de formiguinha, uma gotinha que vai regando uma sementinha. Se uma pessoa consegue ter uma história diferente, já vale muito”, diz.

O aprendizado também envolveu encontrar consumidores capazes de reconhecer o valor do reaproveitamento. Em uma das primeiras feiras, uma cliente desistiu de uma bolsa ao descobrir que ela havia sido confeccionada com jeans usado. “Ela falou: ‘Ah, então é coisa velha’, largou a bolsa e foi embora. Eu fiquei arrasada.”
No dia seguinte, em outra feira, um casal se encantou pelas peças justamente por serem feitas com material reaproveitado. “Ali eu pensei: pronto, achei meu público.” Hoje, Rose conta que a Ressigna já é conhecida nos circuitos de feiras de Maceió, reúne clientes recorrentes e recebe encomendas personalizadas, inclusive de pessoas que entregam roupas carregadas de memória afetiva para transformá-las em novas peças.
Da primeira capacitação à consolidação da Ressigna, o Sebrae permanece presente na trajetória de Rose, ajudando a transformar conhecimento artesanal e propósito socioambiental em um pequeno negócio capaz de gerar renda e impacto.
E é nesse ciclo que a empreendedora também enxerga o significado da escolha de quem compra: uma calça que não pode mais ser usada ganha outra forma, uma lona deixa de ser descarte e uma venda ajuda a financiar ações que criam oportunidades para outras pessoas. “Não é só o produto que está sendo reaproveitado e ressignificado. A gente está conseguindo ressignificar também vidas de outras pessoas. E esse é o principal propósito.”

Compre do Pequeno
Os pequenos negócios brasileiros são a grande força da economia brasileira. Com mais de 24,19 milhões de CNPJs – o que representa mais de 96% das empresas ativas -, o setor é responsável por 26,5% do Produto Interno Bruto (PIB). São mais de 13,5 milhões de microempreendedores individuais (MEI), 8,8 milhões de microempresas (ME) e 1,8 milhão de empresas de pequeno porte (EPP) atuando em todo o território nacional.
A força desse segmento é celebrada de forma especial em 5 de outubro, no Dia Nacional da Micro e Pequena Empresa. Em comemoração à data, o Sebrae promove a campanha Compre do Pequeno, para valorizar o papel que esses empreendedores desempenham nas vidas das pessoas e de suas localidades.
Somente em 2026, o Brasil já registrou a abertura de mais de 4 milhões de novos pequenos negócios. A contribuição para a economia também se dá pela geração de empregos: em média, 80% dos empregos gerados estão no setor. Ao decidir comprar em um pequeno negócio, o consumidor contribui para a circulação de dinheiro dentro da própria comunidade, a geração de mais vagas de trabalho e o desenvolvimento da economia local.
Fonte: Agência Sebrae de Notícias