A SaferNet Brasil, organização que defende direitos humanos na Internet, anunciou nesta sexta-feira (14) que protocolou na Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) um levantamento inédito que aponta 1.093 endereços ativos no Telegram com indícios de violência sexual contra crianças e adolescentes.

Outros 22 endereços apresentam indícios de incitação à automutilação e suicídio. Ao todo, o monitoramento aponta 1.985 endereços ativos e públicos no Telegram com possíveis violações de direitos humanos.

Os dados fazem parte de um monitoramento realizado pela SaferNet Brasil, com base em denúncias anônimas registradas no site da organização.

Entre 2017 e 2026, cerca de 15 mil endereços únicos do Telegram foram denunciados ao canal da SaferNet Brasil. Desse total, cerca de 55% já não existem ou foram removidos e outros 32% eram convites revogados.

Os 13% restantes, que correspondem aos 1.985 endereços ativos, foram consultados por ferramenta de interface de aplicação do próprio Telegram.

A pesquisa mostra crescimento acentuado a partir de 2022 e pico histórico de denúncias em julho de 2026. A relação completa dos endereços foi entregue às autoridades para fins de investigação.

Thiago Tavares, presidente da SaferNet, aponta a expectativa de fiscalização por parte da Agência Nacional de Proteção de Dados, a partir de legislações como o Estatuto da Criança e do Adolescente Digital, o Marco Civil da Internet e a Lei Geral de Proteção de Dados.

“Para que a Agência possa, de posse desses dados, se debruçar, e conduzir um processo robusto de fiscalização dessas práticas ilegais que tanto têm causado prejuízos à sociedade brasileira em todos os seus segmentos. São crianças e adolescentes vítimas de crimes bárbaros, imagens que circulam em crimes que são praticados dentro da plataforma. Pessoas adultas, pessoas idosas, são vítimas de fraudes e extremismo violento que também encontra na plataforma”.

O fundador da SaferNet Brasil avalia que a plataforma Telegram falha na moderação de conteúdos e está sob investigação em outras partes do mundo.

“É uma plataforma que tem deficiências históricas, uma precariedade muito grande na moderação de conteúdo, na detecção de abusos. Isso não é só no Brasil. O estudo também prova com dados oficiais compilados a partir da base de dados do DSEI Europeu, que é o marco regulatório vigente hoje da Europa, desde 2023,  que o Telegram também não cumpre integralmente a legislação europeia. E ele está sob investigação no Reino Unido e na Austrália. Então é uma empresa que de fato tem sido objeto de preocupação no mundo inteiro”.

A Agência Nacional de Proteção de Dados informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que prepara uma resposta ao levantamento entregue pela SaferNet.

A reportagem não conseguiu contato com o Telegram, que não possui escritório físico ou sede corporativa própria no Brasil, embora tenha 100 milhões de usuários no país.

*Com produção de Salete Sobreira.
 

Fonte: Radioagência Nacional – EBC