Publicado em 15 maio 2026
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por Daniel •
Um clima atípico em Corumbá na manhã desta sexta-feira, 15 de maio, com termômetros abaixo dos 30 graus Celsius e um céu nublado deram o tom para a abertura do Quebra-Torto com Letras na edição 2026 do Festival América do Sul.
A Corumbá das altas temperaturas se aqueceu com a conversa calorosa entre as escritoras Rai Soares, Raquel Medina e Jusley Monteiro, tendo a mediação de Jordana Xavier. Enquanto elas falavam sobre memória, identidade, protagonismo feminino e literatura, num outro canto do pátio do Moinho Cultural Sul-Americano, o fogo literalmente ardia em lenha para preparar o principal prato do dia: arroz carreteiro.
A gerente de Patrimônio do Fundação de Cultura do Estado de Mato Grosso do Sul, Melly Sena, deu as boas-vindas aos presentes e lembrou que o momento que une Literatura à tradição pantaneira do café da manhã reforçado está presente em todas as edições do festival desde sua criação, tornando a atividade mais tradicional do Festival ao longo dos anos.
Corumbaense, a pedagoga e escritora Jusley Souza não é uma estreante de Festival, porém nessa edição o sentimento foi diferente. “Ser convidada para sentar numa mesa com outras escritoras, meu Deus do céu! Olha a mesa que eu estou sentada, olha as pessoas que estão comigo. É uma honra, é um privilégio, eu fico emocionada”, comentou a escritora que, durante as primeiras edições do FAS, aos quinze anos de idade, estava na plateia uniformizada ainda como estudante.
“Você vê a galera que era você um tempo atrás, né? Era eu sentada ali, agora sou eu aqui participando. Penso que, para eles, isso é muito importante, para saberem que pode ser vocês um dia aqui também”, comentou Jusley ao perceber ser prova viva de como evento como o Festival América do Sul desempenham papel fundamental, ao longo do tempo, para formação de uma nova geração de amantes da Literatura, sejam leitores ou escritores.
Com a mesma idade que a escritora Jusley quando começou a participar do FAS, Natália Soliz Gusmão está morando a um ano em Corumbá e mostra-se uma apaixonada por livros. A jovem é nascida na Bolívia, na cidade de Santa Cruz de La Sierra e enxerga na leitura uma forte aliada para aprender o idioma do país que a família dela adotou para viver.
“Desde criança minha mãe comprava livros de crianças para eu ler e realmente gostava, mas na situação econômica do meu país não dava muito e deixei de lado meu hobby. No ano passado, quando meu pai deu o celular, descobri um aplicativo para ler, mas o livro físico me desperta muito interesse”, disse a estudante que ainda revelou ter desejo de seguir carreira no mundo das Letras ou da Comunicação.
Tradição Pantaneira
Após o bate-papo entre as escritoras, o arroz carreteiro acompanhado de um feijão gordo, paçoca de carne seca, farofa de banana, bolos, entre eles, o tradicional bolinho de chuva e o famoso mate queimado pantaneiro formaram o banquete para o público presente.
A responsável por coordenar toda a equipe da cozinha há 17 anos é a pantaneira Lídia Aguilar Leite que faz questão de vir trajada a rigor como manda o figurino do Pantanal, com bota, chapéu e faixa paraguaia para mostrar que a tradição vai além da mesa e chega à vestimenta.
“É uma celebração, porque o pantaneiro sai pra lida do campo muito cedo. Então ele tem que comer antes. E aí serve o carreteiro, ovo frito. Cada dia serve uma coisa. A comitiva sai. Aí o cozinheiro sai na frente pra chegar no lugar antes, arrumar, limpar. Colocar a trempa que é um ferro que fica um fogãozinho aberto onde coloca-se lenha e cozinha”, ensinou ao contar que a equipe que preparou o Quebra-Torto desta sexta-feira começou os preparativos um dia antes e chegaram às 05h30 da manhã para deixar tudo pronto após o bate-papo literário.
“Sempre tem uma galera jovem que não conhece o Pantanal, né? Então, isso tem que ser mostrado para não acabar a nossa tradição, mostrar o que é o quebra-torto, como que faz as receitas principais”, observou Lidia.
Neste sábado, a programação do Quebra-Torto com Letras segue com os escritores Cidinha da Silva, Rossine Benício e André Ramalho, a partir das 08 horas, no Moinho Cultural Sul-Americano.
texto Lívia Gaertner
Fotos Elias Campos







