quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Cultivo agroecológico de morangos ganha escala no Seridó potiguar

Em um movimento que rompe com a cultura produtiva tradicional do Nordeste, cresce, na região do Seridó do Rio Grande do Norte, o cultivo agroecológico de morangos. A Fazenda Tupinambá, localizada na Serra de Santana, em Bodó (RN), conta hoje com uma produção estimada entre 1.800 e 2.000 quilos por ciclo anual e pretende ampliar em cinco vezes esse volume ainda neste ano. É a prova da força do sertanejo, que a cada ano demonstra mais resiliência e capacidade de inovação.

Em 2025, pela qualidade e diferencial produtivo, a iniciativa foi reconhecida com o selo Feito Potiguar — movimento que valoriza tanto a tradição quanto a inovação do que é produzido no estado, incentivando pequenos e médios produtores com mais visibilidade e credibilidade no mercado.

O caminho que deu origem ao cultivo começou em uma jornada de retorno ao Nordeste. Hoje produtora rural, Edneuman Assunção é formada em engenharia civil e atuou por muitos anos na área de gestão e consultoria, no Rio Grande do Sul. No entanto, decidiu retornar para a fazenda onde viveu na infância — uma propriedade herdada do pai, no Seridó Potiguar – acompanhada do esposo, o gaúcho Alex Amico. O retorno foi motivado pelo desejo de estar mais próxima da mãe, que enfrentava dificuldades de mobilidade, e também pela necessidade de “desacelerar”, reconectar-se com as origens e dar um novo sentido à forma de viver e trabalhar.

“Ao decidir morar definitivamente na fazenda, eu e meu marido passamos a buscar alternativas para tornar a propriedade economicamente viável e sustentável. A produção de morangos nasceu de uma paixão pessoal pela fruta, que se intensificou durante o período em que vivi no Rio Grande do Sul, onde pude conhecer de perto diversos produtores, tecnologias de cultivo e modelos de negócio”.

A dificuldade de acesso a insumos, a adaptação às condições climáticas e o fato de implantar uma cultura inédita na região foram os principais desafios da empreitada. Somava-se a isso a falta de referências locais de produção, o que exigiu estudo constante, acompanhamento técnico e coragem para experimentar. “Cada etapa vencida reforça a certeza de que estamos construindo algo novo e consistente”.

Para driblar as adversidades da adaptação do cultivo ao território — já que o morango é mais propício a regiões frias —, os produtores adotaram o sistema semi-hidropônico, no qual as plantas são cultivadas sem o uso da terra tradicional, apoiadas em um material neutro e irrigadas com água e nutrientes na medida certa.

A técnica permite controle preciso da irrigação e da nutrição, reduz o estresse das plantas e possibilita a criação de um microclima mais equilibrado dentro das estufas. “A escolha do local também foi estratégica: estamos em uma área elevada, com boa circulação de ventos, o que ajuda no resfriamento natural e contribui para a qualidade do cultivo”.

Crescimento com sustentabilidade

Atualmente, a Fazenda Tupinambá conta com cerca de 2 mil plantas, com produção estimada entre 1.800 e 2.000 quilos por ciclo anual. “Em março, receberemos novas mudas oriundas da Espanha, e a expectativa é que, a partir de agosto, nossa produção seja aproximadamente cinco vezes maior do que a atual. O objetivo é crescer de forma planejada, mantendo qualidade, cuidado com o manejo e respeito ao território”, afirma.

Nesse processo de crescimento, Edneuman conta que um dos principais impulsos foi o recebimento do selo Feito Potiguar, que ampliou significativamente a visibilidade do produto e reforçou a credibilidade de sua origem potiguar. Além disso, o Sebrae esteve presente com apoio à produção de avicultura caipira, cuja renda contribuiu para a estruturação de outras atividades da fazenda, entre elas o cultivo de morangos.

Para a gerente da Unidade de Desenvolvimento Rural do Sebrae-RN, Mona Paula Nóbrega, a produção de morangos da Fazenda Tupinambá representa um motivo de entusiasmo para o movimento Feito Potiguar. “Apesar de ser uma cultura considerada exótica no estado, assim como o açaí, produzir morangos no Rio Grande do Norte, com manejo agroecológico, traz diferenciais importantes para o produtor”, destaca.

Ela explica que o selo atua na abertura de oportunidades de mercado e no acesso a novos clientes, que se surpreendem ao saber que os frutos são potiguares. “O programa amplia a visibilidade, fortalece a participação em feiras e eventos e contribui diretamente para o aumento da clientela e do faturamento. Consumir morangos frescos é, também, um privilégio potiguar”, destaca.


Fonte: Agência Sebrae de Notícias