domingo, 11 de janeiro de 2026

De nicho à tendência global: a ascensão da cultura geek

Instagram sergio_cantu

Sérgio Cantú em meio a diferentes versões do Homem-Aranha durante a CCXP, um dos maiores encontros da cultura pop no Brasil.

Durante muito tempo, ser geek era algo vivido em silêncio. Gostar de quadrinhos, RPG, ficção científica ou universos fantásticos ficava restrito ao quarto, a poucos amigos ou a espaços muito específicos. Hoje, esse cenário mudou. O que antes era tratado como gosto pessoal passou a funcionar como identidade cultural, atravessando comportamento, relações sociais e até escolhas profissionais.

Essa relação vai além do consumo. Uma pesquisa realizada pela Serasa, em parceria com o Instituto Opinion Box, mostrou que 69% das pessoas que se identificam como nerds ou geeks sentem orgulho dessa identidade, enquanto mais da metade afirma que esse vínculo influencia diretamente a forma como se expressam, se relacionam e se posicionam no mundo. O dado ajuda a entender por que a cultura geek deixou de ser entretenimento: ela passou a funcionar como linguagem, pertencimento e afirmação pessoal.

Essa virada não aconteceu de uma hora para outra. Ela acompanha uma mudança mais ampla na forma como consumimos cultura e, principalmente, como nos reconhecemos dentro dela. Grandes franquias deixaram de ser puramente entretenimento e passaram a funcionar como pontos de encontro simbólicos. Harry Potter, Star Wars, Senhor dos Anéis e tantas outras histórias criaram universos nos quais o público não só assiste, mas participa, debate, produz conteúdo e constrói comunidade.

Franquias como Harry Potter e Star Wars se tornaram espaços de encontro, troca e pertencimento para fãs ao redor do mundo.
Reprodução

Franquias como Harry Potter e Star Wars se tornaram espaços de encontro, troca e pertencimento para fãs ao redor do mundo.

O pesquisador Henry Jenkins, ao analisar fenômenos como Harry Potter, aponta que essas narrativas operam como espaços de pertencimento. Fãs não se conectam apenas à obra, mas uns aos outros, criando redes de troca, identificação e reconhecimento. O valor dessas histórias vai além do enredo, ampliando sua experiência social.

Identidade não nasce pronta

Do ponto de vista psicológico, identidade não é algo fixo. Ela se constrói ao longo da vida, a partir da forma como cada pessoa interpreta suas experiências e organiza a própria história. Segundo o  psicólogo Dr. Manoel Acioli, “identidade não é algo com o qual a pessoa nasce pronta. Ela vai sendo construída a partir de como o indivíduo se entende, se avalia e interpreta suas experiências”. Essa narrativa interna influencia emoções, escolhas e relações.

Nesse processo, a cultura geek aparece como um repertório simbólico importante. Histórias desse universo costumam apresentar personagens que não se encaixam, que erram, que lidam com inseguranças e constroem seus caminhos aos poucos. “A cultura geek entra nesse cenário como um repertório poderoso de referências”, explica Acioli.

Essas narrativas ajudam a reorganizar a forma como muitas pessoas se veem. Características que antes eram tratadas como inadequação passam a ganhar outro significado quando encontram eco em personagens e histórias semelhantes. Esse movimento se fortalece quando há reconhecimento social. “Aquilo que antes podia ser vivido como inadequação passa a ganhar outro significado, não como falha, mas como identidade”, afirma.

Pertencer muda tudo

O pertencimento é uma peça central nessa transformação. Compartilhar referências reduz o esforço de se explicar o tempo todo e aumenta a sensação de ser compreendido. Segundo Acioli, referências culturais comuns funcionam como uma linguagem simbólica intermediária, facilitando vínculos e criando previsibilidade nas relações. “Falar por meio de histórias é psicologicamente mais acessível do que falar diretamente de si”, resume.

Essa mediação simbólica ajuda a entender por que, para muita gente, a cultura geek funciona como linguagem emocional. Ao se identificar com personagens ou universos, indivíduos conseguem expressar sentimentos complexos de forma mais segura, deslocando o foco do eu para a narrativa e reduzindo medo de julgamento.

Quando o gosto vira afirmação

A trajetória do dublador Sérgio Cantú ilustra bem esse processo. Conhecido por dar voz a personagens icônicos da cultura pop, como Sheldon Cooper em The Big Bang Theory, Andrew Garfield em O Espetacular Homem-Aranha e o personagem L em Death Note. Mas o contato com quadrinhos e universos fantásticos começou cedo, mas por muitos anos ficou restrito ao espaço privado. Era algo vivido em casa, entre poucos amigos, sem assumir publicamente.

Sérgio Cantú, dublador de Sheldon Cooper, fala sobre como a cultura geek deixou de ser gosto pessoal e virou identidade.
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Sérgio Cantú, dublador de Sheldon Cooper, fala sobre como a cultura geek deixou de ser gosto pessoal e virou identidade.

Essa dinâmica mudou na vida adulta, quando ele passou a se sentir confortável em assumir esses interesses publicamente. “A cultura geek deixou de ser só gosto pessoal e passou a fazer parte de quem eu sou”, afirma.

Entre as referências que marcaram sua formação, os X-Men ocupam um lugar central. Aquelas histórias funcionaram como espaço de identificação e acolhimento durante a adolescência.

Da experiência individual ao pertencimento coletivo: como a cultura geek se consolidou como identidade cultural.
Produzido por IA

Da experiência individual ao pertencimento coletivo: como a cultura geek se consolidou como identidade cultural.

Com o tempo, esse vínculo deixou de ser somente interno e passou a facilitar conexões. “Quando você compartilha essas referências, cria conexões imediatas com outras pessoas”, observa. Para ele, esse reconhecimento entre fãs gera aproximação e conforto, inclusive no ambiente profissional. “Isso acaba abrindo portas em termos de trabalho e de conexão”, completa.

No fim das contas, talvez ser geek nunca tenha sido sobre o que se consome, mas sobre encontrar, nessas histórias compartilhadas, um jeito possível de existir no mundo.

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