quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

O divertido passeio ‘camp’ vingativo de A Empregada

Existe uma terminologia que tornou-se muito popular, especialmente, na indústria do cinema hollywoodiano e show business, em geral.

Estamos falando da gíria ‘chick flick’ – no traduzido, filme de mulherzinha – que nada mais é do que um termo informal, muitas vezes, depreciativo, para o gênero cinematográfico voltado especificamente para os interesses das mulheres e comercializado para o público feminino.

Geralmente, tendem a atrair um público feminino mais jovem e tratam principalmente de amor e romance. Embora muitos tipos de filmes possam ser direcionados a um público feminino, o termo “filme de mulherzinha” é normalmente usado apenas em referência a filmes que contêm drama e emoção pessoais ou temas baseados em relacionamentos. Os tais “filmes de mulherzinha” costumam ser lançados em massa, por volta do Dia dos Namorados, por exemplo.

Vale lembrar que o termo “filme de mulherzinha” não era amplamente utilizado até as décadas de 1980 e 1990, que tem suas raízes nos “filmes femininos” do início do século XX, que retratavam a mulher como vítima e/ou dona de casa, e posteriormente, no filme noir das décadas de 1940 e início de 1950, que retratava a ameaça representada pela sexualização da mulher.

Contudo, é necessário que seja dito que todas (!) estas denominações e escolhas mercadológicas foram feitas, sempre, inteiramente, em salas de reunião habitadas, exclusivamente, por homens que decidiam todas as formas e meios para a política, economia e sociedade.

Isso quer dizer que, de modo geral, a mulher nunca fez parte de qualquer decisão a respeito de tudo aquilo que, costumeiramente, é direcionado para ela no aspecto social e consumista. Portanto, tal terminologia tão deslocada e mal utilizada, perde seu valor que, em pura realidade, nunca teve.

Agora, levando-se em consideração o despertar e a consciência da vida e trajetória do feminino com a virada para o século XXI, podemos dizer que há um espaço e tempo para que as mulheres decidam para si o que pode ser visto como uma obra do tipo ‘chick flick’.

Nesse cenário, entra o saboroso longa-metragem A Empregada (2025), de Paul Feig, que fala diretamente com o público feminino que, no mundo real, lamentavelmente, ainda precisa lidar com alguns “esqueletos no armário”. A Empregada acompanha uma jovem com um passado conturbado (Sydney Sweeney) que se torna a empregada de uma família rica, mas a vida aparentemente perfeita da família começa a desmoronar quando ela descobre que a casa onde trabalha esconde segredos obscuros.

Destrinchar a respeito de A Empregada é uma tarefa que exige o maior cuidado, uma vez que a narrativa do filme de Paul Feig vai se desdobrando em alguns ‘plot-twists’ que se revelados, não apenas atrapalhariam algumas das reflexões que, sim, fazem parte dessa história, mas principalmente, anulariam o prazer e divertimento que, muito provavelmente, será a característica mais exaltada pelo público geral.

O que podemos afirmar sobre o longa-metragem que estreia no primeiro dia de 2026, pelas salas de cinema brasileiras, é que aqui temos uma obra do tipo ‘camp’, que é um termo complexo que descreve uma sensibilidade estética, uma forma de expressão e uma filosofia que abraça o exagerado, o artificial, o teatral e o suposto “mau gosto”, só que de forma irônica e divertida, celebrando o extravagante e o sarcasmo.

Nada define melhor A Empregada do que a expressão ‘camp’, em especial, quando voltamos nossos olhares para a performance (mais que) estridente de Amanda Seyfried, ainda assim, com espaço para afrontas irônicas, algo que veremos também no terço final, só que através de Sydney Sweeney, que revela um lado diferente daquele que nos acostumamos, até aquele momento.

Ao final de A Empregada, junto do entretenimento distorcido e (um tanto) perturbado, certamente levarão para casa algo de muito valor que fala a respeito de uma mudança tão significativa quanto o despertar das mulheres com a virada do século, que fala especificamente sobre duas coisas.

Primeiramente, sobre uma transformação na figura e aparência a respeito daqueles que realmente instalaram o que de mais cruel existe, em nossa sociedade; e, segundo, caso estas figuras sejam rodeadas desde os primórdios por uma redoma de poder e privilégios, mais desumanas serão as consequências. Sendo as vítimas, as mesmas figurinhas carimbadas, desde sempre.

gente.ig.com.br

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