quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

A mãe infindável em Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria

Recentemente, tivemos a estreia nos cinemas de Morra, Amor (2025), de Lynne Ramsay, que está bem cotado para a temporada de prêmios que está prestes a começar. A obra de Ramsay vem sendo descrita por boa parte da crítica especializada, como uma narrativa que explora a maternidade e a depressão pós-parto que acomete tantas mulheres.

Sim, é verdade. A cineasta escocesa Lynne Ramsay realmente mira discorrer a respeito destas temáticas, porém, após o final da sessão, fica a impressão de que Morra, Amor é mais que isso, uma vez que a diretora expandiu tanto os horizontes da narrativa que percebemos, como espectadores, imersos em uma floresta “fechada” que grita de modo berrante tudo aquilo que manifesta-se no corpo e, por consequência, universo feminino.

Agora, quando o assunto é maternidade, estritamente, sobre maternidade, temos por Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (2025), de Mary Bronstein, talvez, aquele tipo de mancha na roupa que não importa quantas vezes tente lavar a peça, ela nunca sai, nunca desaparece, fazendo da narrativa da diretora, algo muito além do drama psicológico, caindo fundo no buraco da tensão, terror e mal-estar.

Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é sobre Linda (Rose Byrne), uma psicóloga à beira de um colapso, lidando com a doença misteriosa da filha, um marido ausente, problemas de moradia e uma paciente desaparecida, enfrentando o desespero e o isolamento enquanto busca uma saída para seus múltiplos problemas, explorando as pressões e o esgotamento da maternidade na vida diária.

Dissertar sobre Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria pode ser, consideravelmente, um procedimento cirúrgico, à medida que os detalhes e escolhas técnicas feitas por Mary Bronstein, estabelecem a nossa resistência como público, enquanto tentamos lidar com todo este composto de emoções e pensamentos como espectador, de um modo que o próprio pode até rejeitar os conceitos e ideias da diretora, mas torna-se impossível negar a existência e caos representado tão vividamente pela narrativa, que usa das expressões, voz e corpo de Rose Byrne, como uma prova cabal do detrimento da figura materna.

Desde a primeira cena de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, nos afogamos na desordem que já habita o interior da protagonista, enquanto a câmera de Bronstein fecha, mais e mais, na face de Rose Byrne, quase que adentrando seu corpo, pelo globo ocular.

Aqui, claramente, percebemos que a cineasta está nos dizendo, de modo rigoroso e na mão firme, que nós como espectadores não devemos tirar o olho da protagonista dessa história, visto que toda a narrativa é sobre o que a psicóloga Linda vive e passa, em cada um de seus dias. E, tão inspirada também, foi a escolha da jovem diretora em não revelar para o público, a feição da filha da protagonista, já que este é um filme sobre maternidade, ou seja, uma condição que diz (muito) mais sobre o estado emocional e mental da mulher que virou mãe do que a criança vulnerável que está sob os cuidados de um adulto.

No início de 2025, tivemos outra obra que também chamou a atenção na temporada de premiações que, de certo modo, pode ser comparada à Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, no caso, estamos falando sobre o terror corporal A Substância (2024), da cineasta francesa Coralie Fargeat.

Se Fargeat, usou mais da montagem frenética para exprimir a perseguição sem fim para chegar na tal, “beleza perfeita”, que na realidade, grita a respeito de nossa carência contínua por aprovação e afeto, do que Bronstein em sua narrativa, ainda assim, podemos afirmar que ambas cineastas compreenderam que seria através de suas atrizes, Demi Moore e Margaret Qualley, em A Substância, e Rose Byrne, em Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, que teriam a possibilidade de explorar, severamente, o pandemônio da vida e escolhas destas mulheres.

No centro do furacão criado por Mary Bronstein, encontra-se Rose Byrne, uma atriz de Hollywood, muito mais conhecida por seus papéis cômicos, que faz de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, uma plataforma onde testemunhamos o amassamento e decomposição de um espírito.

Apesar do rigor narrativo imposto por Bronstein, impressiona a atenção aos detalhes mais minuciosos dela que, em um determinado momento, faz sua protagonista envelhecer dez anos – pela maquilagem – como que de um dia para o outro, exaltando o cansaço e exaustão de uma mulher quase que totalmente sozinha nessa luta.

Sim, existe uma crítica voltada à figura masculina que não se faz presente na constituição familiar, feita pela cineasta americana, mas, nunca sentimos desviar do foco principal: o peso presente no cargo do que é ser mãe, todos os dias.

O bizarro buraco encontrado no teto do quarto do casal, que no começo do filme, havia inundado o apartamento da família, por causa das encanações rompidas, é tratado pela diretora quase que como um espelho de sua protagonista, que não enxerga o seu reflexo ali, contudo, ela encontra vestígios de si naquele vazio obscuro de pequenas luzes cintilantes, como numa nebulosa, a gigantesca nuvem de gás e poeira cósmica, no espaço interestelar.

Entretanto, nenhuma imagem em Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria – que terá o seu título elucidado, através de uma confissão pessoal da protagonista – é tão marcante e dilacerante quanto uma cena de perseguição, entre a psicóloga e um de seus pacientes.

Na cena, observamos a protagonista Linda correndo a pé, tentando alcançar Caroline – interpretada por Danielle Macdonald – porém, nunca conseguindo chegar perto, que corre desesperadamente pelas areias da praia, literalmente, desaparecendo, sumindo em uma grande parede de escuridão no horizonte.

E, assim como em Morra, Amor, de Lynne Ramsay, que apenas aparenta tomar para si, um tom pessimista, sendo que na verdade, tudo o que faz é expressar de forma nua e crua, que ser mãe é uma função que nunca, nem por um segundo, poderá deixar de fazer. Basicamente, um trabalho sem fim e descanso. Será que existe algo mais aterrorizante, do que isso?

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