quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Xica da Silva: a novela que marcou a TV brasileira nos anos 90

Em 17 de setembro de 1996, estreou na extinta TV Manchete (1983-1999) a novela Xica da Silva, escrita por Walcyr Carrasco. No entanto, só se descobriu alguns meses depois quem era o autor, pois ele tinha contrato com o SBT e não poderia assinar uma novela concorrente. A trama, protagonizada por Taís Araujo, é considerada uma obra-prima da dramaturgia brasileira.

Xica da Silva começou cercada de mistério. A novela, que alcançou 15 pontos de audiência na Manchete, foi inicialmente assinada pelo pseudônimo Adamo Rangel, despertando curiosidade entre jornalistas e atores do elenco. O diretor Walter Avancini (1935-2001) despistava a mídia, afirmando que o autor não queria se identificar. A Manchete reforçava a versão e chegou a dizer que Adamo Rangel era um escritor de livros esotéricos.

A qualidade do texto aumentou a curiosidade do elenco sobre o autor. Muitos especulavam que poderia ser Dias Gomes, algum escritor renomado da Globo ou até Paulo Coelho. A trama, recheada de elementos ficcionais, se passava no século XVIII e narrava o encontro entre o contratador João Fernandes e Xica, personagens que viveram um grande amor em Minas Gerais. Segundo a história, o casal viveu junto por 14 anos e teve 12 filhos.

Fenômeno da TV Manchete

Nos anos 1990, a Rede Manchete despontava como uma forte concorrente da Globo. O fenômeno Pantanal, que chegou a virar a “Vênus Platinada” de cabeça para baixo, fez com que a emissora de Adolpho Bloch (1908-1995) apostasse em tramas com grande apelo de audiência. Funcionou com Ana Raio e Zé Trovão (1991), mas a novela Amazônia (1992) foi um fracasso, marcando apenas 4 pontos, diferente de Pantanal (1990), que batia 30 pontos.

Para se aproximar da Globo em termos de qualidade, a Manchete buscou adaptar o romance Chica que Manda, de Agripa Vasconcellos, cujo enredo se mostrou ideal para a televisão.

Avancini considerava a trama uma “megaprodução dos anos 90” e apostou na riqueza de detalhes, na fidelidade histórica e no erotismo para conquistar o público.

Taís Araujo como protagonista

O projeto estava quase pronto, mas faltava definir a protagonista. Após uma busca em todo o país, o diretor descobriu que a estrela já estava dentro do canal: Taís Araujo, que finalizava as gravações de Tocaia Grande, onde interpretava Bernarda.

Mais jovem que a personagem, Taís tinha 18 anos, enquanto Xica teria cerca de 25. Sua atuação conquistou o país, conferindo projeção nacional e internacional à atriz.

No papel da mãe de Xica estava Zezé Motta, que já havia interpretado a personagem nos anos 1970, no filme de Cacá Diegues.

Sucesso

Xica da Silva alcançou média de 18 pontos, chegando a picos de 22, salvando momentaneamente a Manchete da crise de audiência e financeira, e colocando o canal na terceira posição do ranking de audiência. A novela foi exportada para diversos países.

Polêmicas

Por retratar o Brasil Colônia, a novela trouxe cenas de grande fidelidade histórica. Um dos momentos mais marcantes mostra Maria, mãe de Xica, sendo morta com braços e pernas amarrados a quatro cavalos que correm em direções opostas, esquartejando seu corpo em praça pública.

As bruxarias de Benvida (Miriam Peres) e Violante (Drica Moraes) também assustaram o público. Outro episódio lembrado pelos fãs foi quando Damião (Romeu Evaristo) foi morto e colocado em uma feijoada por ordem de Xica, por trai-la e repassar informações para Violante.

Reprise no SBT

Para enfrentar a Record e seu projeto “A Caminho da Liderança”, Silvio Santos recorreu a uma estratégia: adquiriu o acervo da Manchete, que havia falido, para reforçar a programação do SBT e competir com a dramaturgia da emissora de Edir Macedo.

Com Xica da Silva, o SBT garantiu a vice-liderança no horário, indo ao ar por volta das 21h45 e competindo diretamente com América, da Globo. A aposta funcionou: a novela registrou médias de 18 pontos, consolidando a emissora na vice-liderança isolada.

Enredo da Manchete

Xica da Silva contou a história de uma escravizada que se tornou rainha no século XVIII. Audaciosa e inteligente, ela conquistou o contratador de diamantes João Fernandes (Victor Wagner) e, ao deixar de ser escrava, acabou escandalizando a sociedade da época.

Na Manchete, a trama se passava no Arraial do Tijuco, em Minas Gerais, que posteriormente passou a se chamar Diamantina. Xica, vivida por Taís, e Quiloa (Maurício Gonçalves), dois escravizados que sofriam os desmandos de seu dono, até então contratador do Tijuco, forjaram um plano para roubar os diamantes que ele guardava em casa.

Arruinado, o contratador foi punido pela Corte de Portugal, perdendo todas as suas propriedades e deixando para trás seus filhos, entre eles Clara (Adriane Galisteu) e Martin (Murilo Rosa).

Com a prisão do contratador, Xica foi vendida junto com sua mãe, Maria (Zezé Motta), ao sargento-mor Cabral (Carlos Alberto), pai de Violante (Drica Moraes).

Na casa do sargento-mor, Xica conheceu o novo contratador, João Fernandes. Prometido a casar com Violante, ele se encantou por Xica e resolveu comprá-la mesmo estando noivo.

Mais tarde, João Fernandes encerra o noivado com Violante e assume Xica de vez, tornando-a a “Rainha do Tijuco”. Movida pelo ódio, a jovem Violante faz de tudo para arruinar a felicidade do casal.

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